Você tem fome de quê?

Editorial

Dizem por aí que uma das maiores bênçãos que o ser humano pode ter é poder comer o que quiser, a hora que quiser e quando quiser. Nessa afirmação não há o que contestar, pois uma das coisas mais tristes desta vida é sentir fome. Ter vontade de comer algo e não poder comprar. Ou pior, não ter o básico na mesa. Hoje, você leitor, que está neste momento com o jornal impresso nas mãos, ou lendo este editorial na tela do seu celular ou do seu computador, sem sombra de dúvidas é um privilegiado, pois pode, com certeza, colocar comida na mesa e ter além do que 5.776 famílias divinopolitanas sonham ter um dia. Hoje, você, leitor, que tem o privilégio de sentar em sua mesa – farta – com a informação nas mãos pode levantar as mãos para o céu e ser grato, pois você tem muito mais do que 5.776 famílias na cidade, que vivem com uma renda per capita de R$ 178. 

Isso mesmo: R$ 178. É inevitável não sofrer e questionar: como? Como uma família vive com R$ 178? A sensação que se tem é que a notícia beira ao sensacionalismo. Mas não! Essa é a realidade de 5.776 famílias divinopolitanas. Elas existem. E como existem. Elas lutam. E como brigam por algo. Para ter o básico na mesa e quando têm as três refeições no dia, isso já é motivo de comemoração. Essas famílias guerreiras e, muitas vezes, invisíveis aos olhos da maioria, existem, sobrevivem e comemoram quando têm em suas mesas, muitas vezes o resto que a sociedade oferece em seus “atos de bondade”. Justamente nesse ponto, em que um abismo separa essas 5.776 famílias do restante da população divinopolitana é que entra a responsabilidade política. Afinal, é impossível falar de fome, de extrema pobreza, sem falar de política. 

Os números pioram a cada ano. Em 2013, as famílias que enfrentavam este cenário na cidade eram pouco mais de 100, o número saltou para 1.072 entre 2016 e 2017, para 4.024 em 2019, e 5.776 em 2021. (Veja detalhes em reportagem da página 4.) O que está dando errado? Fechar os olhos não dá mais. Fazer incentivo para receber benefícios de programas federais e estaduais não está resolvendo a situação, e pior: ela se agrava a cada dia. Ano a ano, mais e mais pessoas entram para a linha da extrema pobreza em Divinópolis, aumentando o abismo social na cidade. E é justamente neste ponto que é preciso ressaltar a importância da escolha do voto. Sim! Uma escolha consciente e responsável reflete não só no “meu”, mas também no “seu” e no interesse coletivo. Se a cada ano mais famílias entram para a linha da extrema pobreza, é porque algo está dando errado. E essa “conta que não fecha” está longe de ter uma solução. 

Enquanto uns têm “fome” de asfalto, de calçamento, de cargos públicos, de altos salários, outros têm de comida, de dignidade, de esperança. Enquanto uns almejam cargos altos, outros só querem o mínimo em suas mesas, em suas casas. E aí, qual a sua fome? A sua escolha reflete apenas no seu meio, no seu mundo, ou no coletivo? O que a sua escolha traz para a cidade? Bons resultados, ou apenas o mais do mesmo? Ou apenas vídeos com discursos bonitos gravados nas redes sociais? Enquanto você brinca de eleitor, mais uma família entrou para a linha da extrema pobreza em Divinópolis. Enquanto você tem fome de tudo, menos de comida, uma família almeja apenas um prato de arroz com feijão. O básico dos básicos. 

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