Vereador admite áudios vazados, mas nega troca de favores com prefeito

Flávio Marra foi criticado, em Plenário, por manifestantes que defendem servidora exonerada

Matheus Augusto

O vereador Flávio Marra (Patriota) se pronunciou ontem pela primeira vez, após o vazamento de áudios direcionados à coordenadora do Centro de Referência de Vigilância em Saúde Ambiental (Crevisa), Edimara Martins, exonerada na última semana. Por diversas vezes, seu pronunciamento na reunião ordinária foi interrompido por bate-boca com os presentes no Plenário, que criticaram o vereador e o acusaram de não representar a causa animal. 

Justificativas 

Ao Agora, o vereador presidente da Comissão de Proteção e Bem-Estar Animal admitiu a veracidade dos áudios encaminhados à Edimara. 

— São meus, nunca neguei isso. (...) Jamais faria algo para me comprometer — afirmou Marra. 

Apesar de ter sido consultado sobre a nomeação da servidora quando ela assumiu a coordenadoria do Crefisa, ele nega interferência na exoneração.

— Jamais. Isso é uma prerrogativa do prefeito. Vereador nenhum tem cargo indicado na Prefeitura. (...) Eu achei que daria certo, (...) mas estava enganado. Eu sempre tive um bom trâmite com ela. Ela ama os animais, mas ela não tem capacidade técnica para estar onde estava. A exoneração dela foi técnica, não política — argumentou. 

Acordo?

Em trecho do vazamentos, Flávio afirma ter firmado um compromisso com o prefeito para retirar a denúncia protocolada na Polícia Civil (PC) e o pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar possíveis irregularidades no Crevisa. Após suas denúncias de ração de qualidade ruim e de animais mortos dentro de freezer no local, relata o edil, Gleidson o pediu um tempo para a então coordenadora solucionar as questões. Outras demandas do presidente da comissão eram a paralisação do Castramóvel e a falta de feiras de adoções. 

— O prefeito me chamou e falou: “Flávio, nós vamos colocar essa servidora lá dentro. Vamos dar um tempo para ela. Vamos fazer esse acordo e você não entra com CPI por enquanto, depois se você achar que deve entrar, a gente entra”. Naquele momento, a gente não podia entrar, pois tínhamos três CPIs em trânsito: Educação, São João e Copasa. Inclusive, pediu para tirar a denúncia na Polícia Civil para a gerente entender melhor, e eu achei justo — pontua. 

No entanto, com o passar do meses, o vereador aponta para a permanência dos problemas. 

— O tempo foi passando e as coisas não foram melhorando — avalia. 

De acordo com ele, o Crevisa conta com uma estrutura de 5 mil metros quadrados e investe R$ 120 mil na folha de pagamento. Em nova visita à unidade nesta semana, o vereador relata ter encontrado “meia tonelada de ração mofada”. 

— Aquilo tem que funcionar. (...) O que a gente não pode aceitar é essa servidora exonerada por incapacidade técnica fazer esse Carnaval — justifica sobre as críticas.

CPI

Outro tema mencionado nas mensagens é a CPI da Educação. O vereador relembrou ter pedido para deixar a comissão logo após ter sido indicado pela presidência da Câmara como membro. 

— Se eu quisesse fazer jogadinha com o prefeito, troca, favor, eu teria pedido para sair da CPI? Eu estaria dentro da CPI, onde meu voto teria mais peso. (...) Jamais troquei nada com o prefeito, não preciso disso — argumentou. 

Futuro vice?

Nos áudios vazados nesta semana, Marra revela ter sido convidado pelo prefeito para ser vice em sua reeleição. À reportagem, o vereador ressaltou que as conversas fazem parte dos bastidores da política e não significa moeda de troca.

— Não é manobra. Que crime tem se o Gleidson me chamar para ser vice dele? Onde tem troca nisso? — questiona.

Nova denúncia

Em seu pronunciamento e ao Agora, o vereador citou ter recebido denúncias da possível venda de vagas para castração dentro do Crevisa. 

— Hoje, uma castração numa clínica custa R$ 700 e, no Crevisa, faz de graça — comparou. 

Ainda sem provas, ele indicou a possibilidade do crime ter ocorrido como renda extra aos envolvidos. 

Repercussão

A repercussão na Câmara, para além da manifestação do próprio vereador, ficou por conta de Lohanna França (PV). Eleita deputada estadual, ela questionou sobre as negociações de bastidores entre membros do Executivo e do Legislativo para a formação de uma base em defesa da atual gestão. 

A parlamentar reconheceu a estrutura precária do Crevisa, bem como o número de profissionais abaixo do necessário para atender as demandas. 

— Chove dentro da sala de cirurgia — relatou. 

Sobre a exoneração da servidora, Lohanna classificou a situação como “chantagem”, em referência aos áudios em que Marra afirma ter sido convidado para ser vice da chapa de reeleição do prefeito Gleidson Azevedo (PSC). 

— Fique esperta janete, já estão cortando sua cabeça —

Durante seu discurso, Lohanna apontou que os áudios apontam para a quebra do princípio da impessoalidade na administração pública “em troca de apoio político”. 

— Houve negociação, sim, no alto da Paraná para enterrar a CPI. (...) Está rifando até a vice em troca de apoio político — acusou. 

 

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