Terceirizar a culpa

Terceirizar a culpa 

Educação. Essa, sem sombra de dúvida, é um divisor de águas na vida de qualquer um. Especialistas apontam que, quando há barreiras no acesso à educação, isso pode resultar no aumento do desemprego, da criminalidade, da discriminação. Sem um ensino de qualidade, há dificuldades ainda de inserção no mercado de trabalho, além de chances menores de conquistar vagas em vestibulares ou concursos públicos. A desigualdade social no Brasil fica evidente quando a educação não é prioridade, pois o conhecimento faz com que a população tenha consciência dos seus direitos. É fato que a educação reflete diretamente na escolha dos governantes. Em outras oportunidades, o Agora abordou temas voltados para o amadorismo na política brasileira e trouxe aquela velha reflexão: o povo tem o político que merece? Se olhar pelo lado do momento atual que o país atravessa, talvez a reposta seja sim, pois a sensação que se tem é que a população está cada dia mais burra e que o povo perdeu a vergonha de ser burro, de falar e espalhar “asneiras” por aí. 

Mas, se for feita uma análise um pouco mais profunda, talvez a coisa não seja bem assim. Diante do atual cenário, em um país com 11 milhões de analfabetos, as barreiras atuais de acesso à educação e o quadro econômico que só reforçam o aumento dos índices de evasão escolar, talvez o brasileiro não tenha muita escolha. Dizem por aí “que não se pode medir o outro com a nossa régua”. E sim, isso é verdade. Hoje, muitos profissionais tiveram a oportunidade e conseguiram ter acesso ao ensino superior.  Mas não se pode dizer o mesmo de quem teve que deixar a escola nos primeiros anos para trabalhar e ajudar a levar comida para casa. Quem não teve este privilégio – sim, ter acesso ao ensino superior é um privilégio no Brasil – sem sombra de dúvidas não consegue ter a mesma clareza e condições de analisar as opções que terá pela frente. 

E é justamente aí, diante dessa situação, que uns se tornam responsáveis pelo outro. Com pouca verba destinada à educação, a percepção é de que não há um planejamento focado em resolver essa problemática, e quem entende o cenário e o quanto isso impacta de forma negativa na realidade brasileira tem por obrigação moral cobrar e criar mecanismos de cobrança para que mais e mais brasileiros tenham acesso à educação. Afinal de contas, a quem interessa manter o povo sem acesso à educação de qualidade? A quem interessa manter essa evasão escolar? Talvez sentar e dizer que os políticos são o reflexo do povo seja a maneira mais eficaz de “terceirizar” a culpa e uma forma – injusta – de manter tudo como está. Talvez tudo seja apenas uma questão de um olhar um pouco mais crítico, mais humano. Afinal, a quem interessa manter tudo como está?

 

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