Sua paixão

Sua paixão

Este PB de hoje, como ele (Coronel Faria) chamava carinhosamente esta coluna, não poderia ser diferente, a não ser dedicado ao seu eterno autor. Foi dele esta missão por muitos anos. Neste espaço, informava, criticava, elogiava, mas também ensinava. Homem de inteligência única, as palavras vinham com tanta facilidade que, em um piscar de olhos, o texto estava pronto. Aí, era só se deliciar com cada estrofe, cada verso, e o resto  era com os leitores. Retorno garantido por meio de ligações telefônicas e mensagens à Redação. Para ele, nada de vaidade ou engrandecimento pessoal, pois fazia com dedicação e muito amor. Apesar de não ser sua profissão (era militar), tinha no jornalismo sua paixão. E a exerceu de forma brilhante até passar o bastão, não porque deixou de gostar, porque a escrita é um vício gostoso, mas era hora de detalhar em um livro toda a experiência vivida no jornal e fora dele, ao longo de quase 50 anos, e revelações inéditas. Infelizmente, não houve tempo de levar tudo isso a conhecimento público, mas Sonia Terra ‒ sua companheira nesta trajetória ‒ e os filhos certamente o farão. Muita gente espera ansiosamente, pode ter certeza. 

Único 

Ah, como o tempo passa rápido. Quem nos dera poder voltar e paralisar em um período, quando tivéssemos necessidade e, principalmente, saudade. Quem sabe há dez anos? Quando eu completava oito anos de jornal e acumulava conhecimento, sobretudo, vindo dele. Porém, sabemos que não é possível. Se fosse, ainda teria a oportunidade de vê-lo em plena atividade. Escrevendo os editoriais do Agora, pois,  nesta época, esta coluna estava  a cargo de  Sonia Terra. Até 2017, permaneceram juntos escrevendo as opiniões mais lidas da cidade, sempre com grande repercussão. Completavam-se em todos os sentidos. De lá para cá, tive a incumbência de assumir este espaço, o que faço até hoje. Não com a intenção de substituir alguém, muito menos o grande mestre destas linhas,  porque cada um é único e, como ele, dificilmente Divinópolis terá de novo, mas mostrar o que aprendi e não deixar seu legado morrer. Pois foi aqui, onde o jornal é a principal referência na imprensa, que ele escolheu trabalhar, viver e amar. Fez isso com muita intensidade e sabedoria. Sentimentos que perpetuam e fazem com que, para sempre, ele seja lembrado. 

Baiana 

Era assim que me chamava, devido ao sotaque carregado do Norte de Minas, minha região de origem. E o apelido pegou. Até hoje, muitos ainda me chamam assim, apesar de minha pronúncia atual ter modificado bastante. Mas, foi lá, na sede do Agora na 1º de Junho, em uma de nossas brincadeiras para aliviar o peso de se fazer um jornal diário, que isso começou. Tínhamos muitos assuntos, além da pauta que, se bobeasse, demorava horas. Entre uma xícara de café e outra, política, economia, segurança pública e futebol. Pois tínhamos muita coisa em comum, em especial torcer para o mesmo time: o Atlético. Ele, no caso, sofreu mais do que eu, nos altos e baixos do time durante décadas que, só quem torce, sabe o que significa. Ainda bem que ele ainda viu o ano mágico do Galo em 2021, certamente uma das suas maiores alegrias, antes de partir. Nós ainda ficamos por aqui, na certeza que suas lutas e ensinamentos não foram em vão, e cheios de saudade. 

Difícil 

Dizer adeus neste domingo não somente ao meu eterno chefe e amigo, mas ao homem Pedro Magalhães de Faria de uma fineza e educação tão grandes que até para chamar a atenção era gentil. Ele se foi, difícil de acreditar, no entanto, para nós, fica a promessa de não deixar sua iniciativa vitoriosa acabar e jamais abandonar a sua luta em informar,  levando a cada dia notícias aos  quatro cantos desta cidade e agora do mundo, visto que a internet hoje nos possibilita tal façanha. Muito diferente de quando ele começou, período em que tudo se passava pelas páginas do impresso. Deu e dá voz à população esquecida por quem tem a obrigação de oferecer a ela pelo menos dignidade. Pode ter certeza, Coronel, quem estiver nesse propósito idealizado pelo senhor, seguirá firme para que jamais ele seja abandonado. Confesso que não sei se estes tópicos ficaram da forma que idealizei, ainda no velório, para homenageá-lo, pois o sofrimento de não tê-lo mais entre nós insistia em bloquear minhas ideias, mas não poderia deixar de fazê-la, mesmo com imensa tristeza e mergulhada em lembranças que teimam em não me fazer acreditar que a despedida era real. 

Impossível 

Não sentir um vazio enorme, despedir sem sofrer e separar para sempre de uma pessoal tão especial e gigante em tudo que fez nesta Terra. Pessoas assim não morrem, se transformam em lendas. Assim, me recuso a dizer adeus, apenas até breve. E encerro como o senhor sempre terminava este PB, muita gente viu, mas outras não e agora têm a oportunidade de ler sua frase eternizada: "Quem viver, verá"!

 

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