Solidariedade?

Solidariedade? 

O Brasil foi atingido por uma massa de ar frio que baixou drasticamente as temperaturas. Em algumas cidades do Sul a sensação térmica chega a abaixo de 0. Bastou o clima esfriar para que nobres e bons brasileiros começassem as já conhecidas “campanhas do agasalho”. Com certeza, se você acessou a sua rede social ontem, se deparou com alguém ou alguma empresa ou instituição fazendo uma ação para arrecadar casacos e cobertores. Em uma situação como a de ontem, quando todos foram surpreendidos por essa onda de frio intenso, tudo que se faz ainda é pouco. Porém o cenário traz também uma reflexão muito importante. A sensação que se tem é que a população começou a se preocupar com as pessoas em situação de rua ontem. Parece que as milhares de pessoas que vivem nas ruas foram para lá exatamente ontem. Que anteontem, no mês passado, ou no início do ano, quando o Brasil tipicamente enfrenta o seu período de calor, essas pessoas simplesmente não existiam. 

E este cenário nos faz refletir: é solidariedade ou oportunismo? Sim! É triste pensar que por trás de uma campanha tão importante – como a do agasalho – exista oportunismo. Mas isso é mais comum do que a gente imagina. De 2018 para cá, com o boom das redes sociais, em que uma legião de pessoas ganharam o direito de opinar sobre tudo – mesmo sem ter o devido entendimento sobre o assunto –, você em algum momento ouviu a frase: quem recebe Bolsa Família quer mamar nas tetas no governo! Esse tipo de comentário se tornou comum. Mas o que mais chama atenção é que as mesmas pessoas que condenam quem recebe Bolsa Família – e que fazem discursos dignos de Oscar sobre meritocracia e amam usar aquele jargão “o sol nasceu para todos” – são as que muitas vezes idealizam essas campanhas de arrecadação de agasalhos, roupas, brinquedos e alimentos para famílias em situação de vulnerabilidade e para pessoas em situação de rua. 

É justamente nesse ponto que se faz o questionamento: por que não lutar por direitos, por políticas públicas que garantam distribuição de renda, acesso à educação, programas de reinserção na sociedade, em vez de fazer campanhas, que muitas vezes são apenas para inflar o ego de quem as produz? Ter direito a moradia, a alimentação saudável, a educação, saúde e a políticas públicas que garantam dignidade para o ser humano está na Constituição Federal. Ter o básico para sobreviver é um direito constitucional, que, aliás, é muito lindo, porém, só no papel. A situação de ontem nos leva ao encontro, mais uma vez, de uma velha constatação: estamos sempre falhando. Enquanto sociedade, enquanto governantes, enquanto gestores, enquanto seres humanos. E o pior, nos contentamos com pouco. Um agasalho aqui, uma cesta básica acolá e tudo termina em pizza. O povo cada dia fica mais pobre, mais e mais pessoas vão para as ruas, e esse tipo de ajuda com datas marcadas é o suficiente para que a sociedade feche os olhos para o grande caos que está na sua frente e siga como se fosse boa, generosa e solidária. E, claro, livre de qualquer cobrança!

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