Sobre tecer, bordar e envelhecer

LEILA RODRIGUES 

Sobre tecer, bordar e envelhecer

Eu tinha pressa, muita. O dia era muito pequeno para aquela moça que queria ser tudo na vida, de bailarina do Grupo Corpo a comissária de bordo. E ainda queria gastar meus beijos com os “bad boys” da cidade e dançar a noite inteira na boate da minha cidade. 

Ela tinha uma calmaria em si que chegava a me incomodar. Tinha calma no falar, no caminhar, no viver cada minuto e especialmente no olhar. Me olhava como se tivesse querendo me dizer alguma coisa. Alguma coisa que eu só entendi muito tempo depois. 

Ela bordava. Com as mãozinhas miúdas, coloria o tecido até virar uma arte. Era capaz de passar horas e horas bordando, sozinha, absorta no seu mundo. Cada bordado tinha um destino certo; uma vizinha, uma neta, uma doação. Depois de pronto, nunca acreditava que fora ela quem tivesse feito tal arte. Exibia um sorriso de surpresa consigo mesma.

Um dia, no auge da minha prepotência juvenil, perguntei a ela qual era o sentido de bordar, já que havia tantas outras coisas interessantes para se fazer na vida, além de bordar. 

E ela, na sua infinita grandeza, apenas sorriu. Sorriu e continuou bordando. 

Muito tempo depois, quando tive o primeiro teto pago com o meu dinheiro, todos da família se juntaram para fazer aquele famoso chá de casa nova. Então ela me entregou uma caixa e me disse que nela tinha três coisas muito importantes. 

Na caixa tinha um pequeno guardanapo, um forrinho, todo bordado à mão por ela mesma. 

E eu perguntei, “mas o que são a segunda e terceira coisa? Aqui não tem mais nada”. 

Foi quando ela me respondeu:

“Chegará um dia em que você conseguirá enxergar nas pequenas coisas o que ninguém mais enxerga. Neste dia as outras duas coisas se tornaram nítidas pra você”. 

Ela nos deixou numa tarde de outono, serenamente, como ela vivia. 

O tempo passou e a pequena caixinha adormeceu no armário. Mudei muitas e muitas vezes de casa, de armários e de vida. Mudei meus sonhos, mudei minha forma de ver o mundo, envelheci. E de vez em quando me pego querendo aprender bordar ou fazer alguma coisa com as mãos além de escrever.

Hoje, quando abro a caixinha que minha avó me deu, sinto o cheiro dela. Também sinto e vejo claramente todo amor que ela tinha por mim, em cada ponto do seu bordado.

Há coisas que só o tempo ensina. Que saudade, vó!

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