Só vem!

LEILA RODRIGUES 

Só vem! 

 

Dois anos atrás, fogos e brindes marcavam a chegada de um ano que prometia muito. Expectativas e planos foram criadas naquele dia. 

Logo em seguida fomos  surpreendidos por aquela que seria a grande tormenta do mundo moderno, a covid-19. Ela chegou e mudou nossos comportamentos, nossa forma de trabalhar, de consumir, de pensar e até mesmo de amar. 

No cativeiro de nossos tetos, aprendemos a conviver com a distância e com a proximidade num paradoxo absurdo. Às cegas, avançamos no uso da tecnologia e a saúde se tornou mais importante que qualquer outra coisa. Com o coração dilacerado, experimentamos o vazio dos que se foram sem direito à despedida. Tudo tão rápido e surreal quanto um filme de ficção científica. Entramos para um capítulo triste da história. 

E aqui estamos nós, com a chegada de mais um ano, depois de tudo que vivemos. Nós, os sobreviventes, os escolhidos para continuar a caminhada, aqui estamos com a difícil, mas não impossível, missão de dar continuidade ao ciclo da vida. 

E ainda que as estatísticas apontem um caminho, estamos todos receosos, escaldados como gatos e cheios de dúvidas. 

O que pedir para este ano? O que esperar? O que prometer? Em quem confiar? Onde ancorar nossas angústias ainda latentes?

Ah, como eu gostaria de ter respostas para todas essas perguntas! Como eu gostaria de mais garantias  para planejar meu amanhã! Eu não as tenho! Hoje sei que nunca as tive e nunca terei! 

Mas nem por isso desanimo. Embora eu saiba o meu real tamanho nessa imensidão toda, sei que posso dar os meus passos. Hoje espero mais de mim do que de qualquer outra pessoa. E ainda que juntos não cheguemos mais longe, eu sei que juntos temos mais chances. 

Ainda sonho com uma consciência coletiva, onde cada um reconheça o outro como alguém tão sagrado quanto si mesmo e que juntos, criemos espaços e condições para todos nós vivermos em harmonia. 

Neste exato momento confesso que não teve relevância se passei o réveillon de branco, de amarelo, de estampado ou do que seja. Nem tampouco se teve champagne, ondas do mar  ou coisas do tipo. Depois de tudo que vivemos, espero que 2022 chegue sereno e não arraste a humanidade com ele. 

Só vem, 2022! O resto a gente constrói junto!

 

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