Ser ou não ser, eis a "Wal do açaí"!

CREPÚSCULO DA LEI – Ano IV – LXXI

SER OU NÃO SER, EIS A “WAL DO AÇAI”!

Ariano Suassuna – em uma antológica crítica à ostentação-sem-noção da burguesia ‒ declarou que “nunca foi à Disney”. Causou, pois, grande incômodo. 

Shakespeare, o maior poeta e dramaturgo de todos os tempos (para muitos), nunca saiu da Inglaterra. 

Kant, o maior filósofo de todos os tempos (para muitos), nunca saiu de sua cidade natal, Königsberg.

Ora, Wal de Angra dos Reis –  a “Wal do Açaí” ‒ nunca foi a Brasília.

Estranho, demasiadamente estranho, para quem foi nomeada chefe de algum gabinete qualquer de um ex-deputado não qualquer que atualmente ainda ocupa a presidência.

Esse ex-deputado que ocupa a Presidência é aquele que lidera uma gangue familiar especializada em delitos de improbidade administrativa, carinhosamente conhecida pela imprensa que o paparica como “rachadinha”. Mas é crime organizado, institucionalizado e efetivado nas práticas “ungidas” da bozomilícia.

A “Wal” era responsável pela casa de veraneio em Vila de Mambucaia (Angra/RJ) de propriedade do líder da bozomilícia e ela – a “Wal” ‒ foi recrutada. Contra ela há uma ação penal e pedido de condenação por envolvimento nessas práticas, assim como também se pede a condenação do ex-deputado que hoje ainda ocupa a presidência, o dono da casa.

 

É um açaí podre. 

Pela boca de Hamlet, o bardo de Stratford ‒ upon – Avon dizia que “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Por aqui há verdadeiramente algo de muito podre. Aliás, o verme da podridão transita livremente pelos intestinos do país.

Mesmo com esse açaí “podre”, nas últimas eleições para prefeito e vereador (de triste memória por aqui, nas divinas) “Wal do Açaí” foi autorizada a utilizar o nome “Wal Bolsonaro” (sic) para concorrer à Câmara de sua cidade. Claro que não foi eleita. Voltou a ser a “Wal do Açaí”. Imoral?

O filósofo Kant, que nunca comeu açaí e nunca saiu de sua cidade, defendia a moral natural e a ética do dever. Vem de Kant a própria noção de dignidade humana. Ele dizia que nada neste mundo é possível ser pensado como bom, até sem limites, senão pela boa vontade.

Quem criou a “Wal do Açai” que nunca foi a Brasília age pela boa vontade?

A bozomilícia – como dizia Macbeth – poderia ser apenas uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e nada mais. Entretanto, é muito mais que isso. 

Quem criou a “Wal do Açaí” e deu-lhe até nome é um ladrão de confiança. E ainda lembrando Macbeth, o excesso de confiança é o grande inimigo do homem.

Confiar nesses protetores “da família, das tradições e de Deus”?

Como a bozomilícia articula discursos em favor da “família”, sendo exato que foi responsável pela desintegração de milhares delas matando membros por falta de assistência e, principalmente, pela falta de esclarecimentos durante a covid?

Como pode a bozomilícia falar da “família tradicional” se levaram milhares ao desemprego e à pobreza? Não sabem que a pobreza leva à criminalidade e à prostituição na luta pela sobrevivência?

Como pode a bozomilícia falar das “tradições” se está exterminando comunidades indígenas, matando-as por agressão e omissão, roubando-lhes o patrimônio e destruindo-o com a praga desgraçada do garimpo?

Como pode a bozomilícia falar de evangelismos vazios voltados para o dinheiro dos incautos, falar até em “Deus” para espalhar o ódio e a violência contra o próximo?

Hamlet dizia que precisava mais de sangue que de lágrimas. Por aqui há sangue demais. Basta. Um pouco de lágrimas talvez ajudasse pelo menos para “lavar a cara”, de tal sorte que ela (a cara) pudesse sentir melhor a vergonha de sermos o que estamos sendo, de fazermos o que estamos fazendo, assim como a “Wal do Açaí”.




Comentários
×