Saudades

 

Saudades - João Carlos Ramos

1961

A estrela d'alva enfeita o infinito. No terreiro, o galo inicia seu show diário, convidando a todos para o início dos trabalhos na roça. O leiteiro pula da cama numa rapidez jovial e a esposa madrugadeira já está aquecendo o fogão a lenha (hábito comum das mulheres daquele tempo) para o preparo das delícias matinais. O indispensável bolo de milho, biscoitos de polvilho e o famoso requeijão à moda da casa para serem saboreados com o café torrado na varanda, feito com rapadura e um pouco de mel, seguindo a receita da vovó ensinada há muitos anos. O sol estava com pressa e parecia que estava nascendo antes da hora...

A lua já havia se despedido dos enamorados, prometendo voltar na noite seguinte para dar continuidade à imperdível serenata, encantando o céu e inspirando aqueles que choram e respiram poesia. O homem extremamente trabalhador, agora com a barriga agradecida, cumpre religiosamente sua missão.

Tem a seu lado o fiel cão "alegra tudo" e nunca esquecendo a sua enxada de guerreiro do campo e o chapéu de palha, herdado do avô, ainda em perfeito estado de conservação. Ele segue a estradinha de terra, assoviando a famosa música sertaneja de raiz "o carro de boi lá fora...", feliz como um bebê.

Enquanto isso, a esposa dona Maria não perde tempo e, inspirada, já começa a preparar o almoço. A enorme galinha caipira está em sua mira e, antes de tudo, colhe os quiabos fresquinhos, os tomates e demais hortaliças. Enquanto o senhor José derrama bicas de suor no campo, a dedicada esposa já matou a galinha e agora todos os temperos necessários recendem em toda a casa. Suco de laranja e couve. Doce de maracujá com coco e amendoim. No alto da mesa, o pote cheio d'água, fresquinha da mina. A casa está toda limpinha e com cheiro de alfazema. A chegada do homem trabalhador parece que será comemorada no almoço que certamente poderá causar inveja até nos ricaços. A tardinha iluminada com o pôr do sol e a lua já se atrevendo a voltar, o jantar será uma variedade de sopa de legumes com enormes pedaços de carne de vaca e toucinho defumado, cozinhados em fogo lento, para engrossar bem o caldo. Dificilmente passa algum transeunte por aquelas paragens, mas, quando passa, não resiste ao cheiro, sendo logo convidado a entrar e também saborear aquela maravilhosa sopa.

A lua reinicia seu espetáculo, digno dos poetas em pranto. Assim era antigamente...

Hoje, no ano de 2021, tudo é triste! O esgoto a céu aberto substitui o riacho murmurante. O pânico obriga todos a se abrigarem em seus lares, antes da hora prevista, pois as feras agora são os homens. A lua que se "vire sozinha...". As donzelas choram por ninguém.

Como poeta, pergunto: onde estão as flores e os pirilampos?

"Oh! que saudades que eu tenho da aurora da minha vida. Da minha infância querida que os anos não trazem mais!...”, MEUS OITO ANOS - Casimiro de Abreu.

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