Qual é a linguagem poética?

QUAL É A LINGUAGEM POÉTICA?

3 DE MAIO  - Oswald de Andrade

“Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi”

 

A poesia, já sabemos, é a linguagem do encanto, da emoção frente ao belo, nas palavras de quem as escreve e no olhar de quem as lê. A poesia sempre nos acompanhou, desde a nossa infância enquanto sujeito, como também na infância da humanidade. A poesia estava nas parlendas, nas cantigas de roda como “Ciranda/cirandinha, vamos todos cirandar/vamos dar a meia-volta/ volta e meia vamos dar” ou na linda canção “Nesta rua / nesta rua / tem um bosque / que se chama / que se chama / solidão”. Depois descobriríamos a linguagem poética nas escolas, onde decorávamos e declamávamos as poesias com temas infantis como na “Canção dos tamanquinhos” de Cecília Meireles: “Troc…troc…troc… troc / ligeirinhos,ligeirinhos / troc…troc…troc…troc / vão cantando os tamanquinhos”...

 

Quando avançávamos para o ensino médio e a universidade, nos apaixonávamos por Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, nos versos contra a sociedade violenta que tristes negávamos:

 

O BICHO (Manoel Bandeira)

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

 

  1. S. Eliot, crítico, ensaísta e poeta inglês, afirmou que a função da poesia é proporcionar prazer, emoção e que o poeta tem uma “função direta é com a língua, primeiro para preservá-la, segundo distendê-la e aperfeiçoá-la”. Outro grande poeta europeu, Rainer Maria Rilke, em suas célebres cartas a um jovem poeta, escreveu: “Não há outro caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever”.

 

Outro estudioso da poesia, o brasileiro Domingos Carvalho da Silva reforça a ideia de que a poesia “constitui um tipo definido de linguagem, uma estrutura distinta da comum… As palavras são frequentemente usadas como elementos de uma expressão sonora… Na poesia as palavras se organizam num sistema rítmico...”. Há na poesia o elemento chave, a palavra, com um valor conotativo, de muitos significados e em andamentos como na música! A poesia é para ser falada, recitada, com uma estrutura melódica dada pelas sílabas fortes e fracas, pelas rimas, pela construção métricas dos versos e, sobretudo, com a plurissignificação das palavras, dadas pelo autor ou pelo leitor do poema.



O maior poeta nacional, Carlos Drummond de Andrade, assegura no poema O Lutador que “Lutar com palavras / é a luta mais vã./ Entanto lutamos / mal rompe a manhã./ São muitas, eu pouco...” e sustenta a sua poética:

 

POESIA

Gastei uma hora pensando no verso

que a pena não quer escrever.

No entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

e não quer sair

Mas a poesia deste momento

Inunda minha vida inteira.

 

Já o poeta russo Vladimir Maiakovski, em seu livro “Poética: como fazer versos”, aponta que “a inovação é indispensável a uma obra poética. O material das palavras, as combinações achadas pelo poeta, devem ser reelaboradas”. 

Mas para que toda esta discussão sobre a poesia? Murilo Araújo, no livro “A Arte do Poeta” (1972), nos alerta: ”A terra atormentada precisa da poesia. Temos o dever de não deixar morrer essa força de redenção... Mas com a palavra que nasce do coração fraterno e ressoa calorosa de humanidade e de compreensão pela vida, sua beleza e sua angústia”. 

Assim é a linguagem poética, recheada de palavras com muitos significados, que trazem imagens, percepções, novos olhares para o cotidiano, novas emoções frente ao belo e ao feio, na missão de contribuir com a cultura de cada povo e possibilitar a resistência contra o mundo bélico, desigual, desumano que vivemos. A poesia é sem dúvida o discurso da resistência!

 

Cláudio Guadalupe é educador, poeta com dois livros de poemas já lançados, integrante do Coletivo ARTEFERIA de poetas da cidade, compositor e letrista de MPB com dois CDs lançados.

 

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