Procura-nos o cidadão Milton Pena

Procura-nos o cidadão Milton Pena.

Ainda de dentro, na varanda, olho, curiosa e medrosa:

— A esta altura da manhã de um sempre bem-vindo e exaustivo dia da semana... pergunto, receosa:

— A estas horas, quem chega e chama?

Olho meio receosa e indago, uma vez que ele não me é estranho. Antes de ouvir a resposta, me lembro: Reconheço um tanto...: — Só sei que foi colega do curso primário… E fui logo dizendo, nervosinha: — Diga que ela não está… Saiu há pouco tempo… Foi... Blá blá blá..

— Quando ela voltar diga que é o ex-colega Milton Pena… E, pressuroso:—É a casa da Dona Maria Cândida?, e continua o papo: 

 — Mas aqui é a casa dela?

—Sim, senhor… Responde a moça, doida pra acabar a conversa, vez que tinha muito o que fazer...

— Ela é viva ainda?

— Claro que é… Mas ela é mulher séria… Não está aqui para conversa fiada… Blá… Blá… Blá

— Comigo não é conversa fiada, não. — Acontece que me chamo Milton Pena, fui aluno da Dona Alzira na Escola do Catalão, há muitos anos atrás… Depois ela com outras companheiras ajudou a fundar outra Escola, o Grupo Escolar Miguel Couto… E...

Ando matando as saudades… Ainda ontem fui lá e vi o retrato dela, cofundadora, grande, na recepção… Me despertou muitas saudades… Olhei de longe, me deu saudade, estou agora com vontade de ver a filha dela, a Maria Cândida que mora ou morava nesta casa que tem um coqueiro na porta, e… Pé da flor chamada “Amor agarradinho”, uma teteia, cor-de-rosa e vermelha, agarradinha mesmo… Conferi, me informaram que ela morava aqui, então, entrei… Ela é viva ainda?

— Graças a Deus...

 A empregada, já impaciente, chama vamos embora… Depois você volta...

E a outra, já no limite, entra conta que a Dona companheira dele já foi embora… Era um senhor, até simpático, que foi aluno da senhora, queria ver e conferir e dar um chego no longínquo passado...

Já de volta para dentro, quase chorando:
— O Milton Pena? E cadê ele? Quem deixou ele ir embora sem entrar e falar comigo? Ah! Milton Pena? — Milton Pena? Como me lembro dele e da família dele… A mãe dele, atenta e dedicada, era apelidada Dona Cabrinha, uma simpatia… E havia muitos irmãos como o Argeu, a Eunice… E mais muitos… — Que pena você não ter me chamado, Conceição de Lourdes... Me lembro deles e fico muito alegre de saber que o Milton Pena veio aqui me ver… Lembrarmos juntos, da professora Dona Alzira Corrêa Guimarães, esposa do alfaiate também tão estimado, José Guimarães… Saudades… Mais ainda das filhas, um punhado, não tão belas, mas estilosas… Lá todo mundo era professora… Partidão… Naquele tempo mulher não trabalhava fora.... e… e...

>>>A seguir, ouviu , emocionada, de Maria Cândida: ..

 Tenho em casa, nos meus guardados de estimação, várias cartinhas e bilhetes e cartões de tantos alunos, entre eles, está o cartãozinho do menino Milton Pena, um dos mais adiantados da classe... Ai que saudade! Esse cartão, do Milton Pena, está guardado entre outros numa caixa onde está escrito: “Cuidado… Aqui dentro tem tesouros de cartas e cartõezinhos que guardo com muito carinho, há anos... Aqui, ninguém mexa… Por favor...

 

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Com os olhos já marejados, busco lá dentro o cartãozinho do menino aluno Milton Pena:

 

 Mais lágrimas...

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