PcD denuncia falta de acessibilidade no transporte coletivo: ‘humilhação'

Membros foram à Câmara de Divinópolis para cobrar dos vereadores; alguns se arrastam para entrar nos ônibus e em banheiros

Bruno Bueno

Não é de hoje que o transporte coletivo é alvo de críticas em Divinópolis. Desta vez, as reclamações vêm das Pessoas com Deficiência (PcD). O grupo Superação compareceu ontem, na Câmara, para denunciar a falta de acessibilidade nos ônibus da cidade.

O coordenador do grupo, Altivo Fagundes, utilizou a Tribuna Livre para expor o caso. Segundo ele, a maioria dos coletivos está com os elevadores inoperantes. Em alguns casos, relatou ele, os cadeirantes precisam se arrastar para subir as escadas. Ele descreveu a situação como “humilhante”.

Ônibus

Altivo direcionou suas principais críticas ao transporte coletivo de Divinópolis. Ele afirma que, em alguns casos, precisa se arrastar no ônibus para subir. Isso acontece quando o elevador não funciona.

— No horário de pico, por exemplo, a maioria dos ônibus não funciona. O motorista não tem culpa, até porque não tem cobrador para ajudar na colocação da cadeira de rodas no ônibus. Eu, graças a Deus, tenho meu braço físico bom e entro dentro do ônibus sem elevador com ajuda de pessoas da rua. Mas tem muitos outros PcD que não tem essa mobilidade — afirma.

Ele ressalta que muitas pessoas com deficiência têm dificuldade de locomoção para utilizar o transporte coletivo.

— As mulheres, por exemplo. E as meninas? Como vão se arrastar numa escada para colocar a cadeira de rodas? Correm o risco de pegarem uma infecção, de contraírem doenças e muito mais — ressalta.

Cobranças

Além do transporte coletivo, o coordenador também falou sobre outros pontos do município que registram falta de acessibilidade.

— Nós viemos cobrar a melhoria de acessibilidade nos passeios e nas ruas. Está tudo esburacado. Fica um jogo de empurra-empurra, porque eles alegam que a responsabilidade do passeio é dos lojistas ou dos proprietários da casas. Anos e anos isso vem se arrastando — disse.

Ele também cobrou a readaptação dos banheiros em alguns shoppings do município. Sem citar estabelecimentos, Altivo contou situações humilhantes que vivencia para fazer suas necessidades.

— Fizeram um banheiro para cumprir a lei, só que na realidade não cumprem, porque o banheiro é pequeno. A porta é pequenininha. A cadeira de rodas não passa. Eu mesmo quando chego de viagem e vou ao banheiro tenho que descer da cadeira de rodas e me arrastar. É uma coisa humilhante. Inadmissível a gente ter que passar por isso em pleno século XXI — pontua.

Superação

Membro do grupo Superação, Altivo aproveitou a oportunidade para divulgar o coletivo que, em breve, será registrado como associação. Segundo ele, a atuação do grupo não se limita a Divinópolis. 

— Nosso grupo existe há sete anos. Estamos iniciando essa luta, essa briga. Vamos nos tornar, em breve, uma associação. São 50 pessoas, sendo 40 da cidade e dez de fora. O nosso objetivo é fazer núcleo do nosso coletivo em outros municípios. Estamos criando um núcleo no Espírito Santo, em Vila Velha. Lá também não há acessibilidade nenhuma (...) — elenca.

Ele clamou ajuda da população para prosseguir com as denúncias.

— (...) Essa é uma luta nossa que está partindo daqui. Convoco quem está me ouvindo a cobrar dos poderes públicos para que isso seja melhorado não só em Divinópolis, mas de outros municípios do estado — destaca.

Câmara

A reportagem também conversou com a presidente da Comissão da Pessoa com Deficiência da Câmara, a vereadora Ana Paula do Quintino (PSC). A parlamentar relata que acompanha as demandas do grupo Superação. 

— Nossas reuniões são na Praça do Santuário. É sempre aos sábados. Tem algum tempo que a gente não se reúne, mas nossos encontros são nesse local. A gente vai ter que andar na cidade inteira. Um comerciante deixa de atender esse público porque não proporcionam a entrada — relata.

A vereadora enfatiza que, em sua opinião, o poder público e empresas privadas têm sua cota de responsabilidade sobre o assunto.

— Algumas lojas adotaram um sistema que coloca uma placa. Mas isso não tem que ser apenas em uma lojas, só no comércio. O município tem que se readequar. Dentro do programa Adote um Bem Público, por exemplo, não tem essa cláusula. Eles têm muita dificuldade de chegar nas praças — enfatiza.

Ana Paula também pontua que pretende retomar com as reuniões do grupo e aumentar as cobranças aos órgãos competentes.

— Eu já conversei com o secretário de Trânsito sobre a rodoviária para ver se alguma coisa já está mudando. Às vezes, é demorado para sair. Eu participo do grupo. Não é só aqui. Também temos conversas no WhatsApp. Precisamos conscientizar outras pessoas que têm o mesmo direito que nós temos de ir e vir, eles também têm — salienta.

Mais denúncias

A vereadora do PSC também denunciou a falta de acessibilidade no transporte coletivo de Divinópolis.

— A gente andou em seis transportes coletivos e constatou que em quatro deles o elevador não estava funcionando. Eles alegam que está funcionando. Isso é um trabalho nosso de Comissão, mas eu conclamo a sociedade que nos ajude. Hoje nós estamos aqui em pé, porém não sabemos o que pode acontecer amanhã. (...) — acrescenta.

Ana Paula concluiu sua fala pedindo auxílio da população para garantir o direito das pessoas com deficiência.

— Vai da consciência das pessoas. Se você está na rua, viu um buraco e acha que alguém pode se machucar, manda pra gente. (...) A presença deles aqui é de suma importância e a gente espera que eles venham mais vezes. (...) Eu conclamo a sociedade para nos ajudar enquanto a isso — conclui.

 

TransOeste

 

O diretor do Consórcio TransOeste, responsável pelo transporte coletivo de Divinópolis, Felipe Carvalho, rebateu as denúncias.

— As empresas têm um SAC disponível através do app Fale Bus e não recebeu nenhuma reclamação colocada. Sem saber o número do coletivo fica difícil a apuração, mas os ônibus são revisados diariamente. Entretanto, a terra e a poeira dos itinerários prejudicam o funcionamento do elevador — rebateu.

Felipe argumenta que os profissionais já estão treinados para realizar os procedimentos adequados em situações como esta.

— Por isso que é verificado diariamente esses equipamentos para que possa diminuir esses problemas. A frota é 100% adaptada para pessoas com deficiência. Os motoristas são treinados a operar o elevador, não sendo função do cobrador operar o elevador — argumenta.

 

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