O Diário de Freud

O Diário de Freud

VANDER ANDRÉ ARAÚJO

O Grupo Baal de Teatro nos brindou no último domingo, no Teatro da Cidade, em BH, com o espetáculo “O Diário de Freud”. No palco, os atores Valério Peguini e Heitor Júnior interpretaram, com perfeição, tanto o jovem quanto o velho Freud, em atuações impecáveis e caracterizações convincentes.

Percebemos o cuidado deles com o figurino e a maquiagem, além dos trejeitos de Freud, apresentando ao espectador imagens do personagem bastante próximas das que temos do pai da psicanálise, que também eram expostas para o público em fotografias projetadas ao longo da peça, permitindo, aos que se deixam levar rapidamente pelos estímulos visuais, imediatas e inevitáveis comparações. 

Os atores atuaram com boa preparação vocal e a voz do jovem se misturava à do velho, criando um ambiente de contraste na maturidade da fala, bem como do pensamento do personagem, auxiliando no entendimento das suas reflexões ao longo da sua complexa história de vida que, mediante estudos clínicos, se aprimorava ao longo dos anos. 

Nota-se uma pesquisa de texto bem realizada pelo Grupo, amparada em profissionais, acadêmicos e estudiosos do tema da psicanálise, o que se traduziu em credibilidade na apresentação e certificação de que o que se propunha naquela apresentação artística poderia ser tomado como mais uma conferência freudiana revisitada.

Representar Freud no palco, com um cenário minimalista, longos e densos textos num interessante monólogo, quase sem diálogo, senão pela presença dos dois em cena o tempo todo, não deve ter sido tarefa fácil para eles, mas os atores se esmeraram e nos brindaram com momentos de intensa emoção e vasta reflexão propiciadas pela apresentação fidedigna. 

Em se tratando de atuar com base num Diário, em anotações realizadas pelo próprio Freud, sobre a sua vida pessoal e familiar, sua experiência durante a Guerra, que inevitavelmente nos leva a pensar sobre a que estamos vivendo, sobre o avanço da psicanálise e as críticas enfrentadas pelos doutores da época, o pensamento estadunidense resumido em dólares, as divergências de pensamento com Lacan, as teorias edipianas e, enfim, o que falta à mulher, os atores foram bastante corajosos e nos fizeram crer que o teatro, vivo como nunca, como representação artística completa, pode nos salvar e nos tirar desse momento trevoso, por meio de um processo de autoanálise e desenvolvimento pessoal.

Afinal, como nos alertou Fernanda Montenegro, “estamos nas catacumbas, vivos”, portanto, que a possibilidade de repensar as ideias de Freud, por meio do teatro, possa nos levar adiante, nos mantendo vivos, e não permita a nossa extinção como espécie, com todos os seus conflitos internos e mesmo apesar das tentativas de parar a cultura das artes, notadamente em nosso país, possamos nos conhecer e reconhecer como seres humanos, conscientemente.

 

Vander André Araújo é escritor, autor de “Roupa Suja de Inconfidente” e “Pode durar o tempo de uma música”. Graduando em filosofia pela UFMG.  

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