O conservadorismo rejeita Jesus

Raimundo Bechelaine

 O conservadorismo rejeita Jesus

Em Divinópolis, em Minas Gerais e em grande parte do mundo celebram-se, na próxima semana, os acontecimentos religiosos, ideológicos e políticos que ocorreram na Palestina, há cerca de dois milênios. No centro desses acontecimentos estão a pessoa e a ação de um profeta e reformador religioso, conhecido então como Jesus, originário da cidadezinha de Nazaré da Galileia.  As cerimônias desenrolam-se por vários dias, chamadas de semana santa. Costumam reunir multidões, sobretudo em Minas. Algumas cidades, como as vizinhas Itapecerica, Cláudio, Carmo do Cajuru, Oliveira e São João del-Rei, entre outras, oferecem celebrações em que se juntam tradições seculares e arte.

A religião judaica se havia degenerado num complicadíssimo código de prescrições e rituais, incompreensível para o povo e vazio de vitalidade. Os doutores da lei, os sacerdotes e seus especialistas e funcionários formaram uma burocracia sagrada e também poderosa e corrupta.  Além disso, eram aliados dos governos locais, estabelecidos pelo dominador romano. Centralizava-se, portanto, no Templo de Jerusalém, uma complexa engrenagem. As crenças e práticas religiosas geravam ganhos financeiros e impunham ao povo uma doutrinação moral, ideológica e política. Aos gestores e beneficiários dessa engrenagem interessava manter a situação, conservá-la. O conservadorismo convém a interesses ocultos.

Eis que surge na Galileia um pregador, propondo ideias e atitudes renovadoras. Às vezes, até transgressoras, aos olhos do poder. Anunciava um Deus misericordioso e acolhedor. Em nome desse Deus amoroso, Jesus de Nazaré acolhia todos, mesmo gente de moral duvidosa, que o sistema vigente excluía como pecadores. Apontava-lhes a conversão: "Vá e não peques mais". Humanizava a observância do sábado e dos jejuns. Denunciava a corrupção do Templo e do culto divino. O povo o ouvia com gosto e o aclamava. Muitos o reconheceram como messias e salvador, o Cristo enviado por Deus. Estes tornaram-se seus apóstolos e discípulos; deram origem à Igreja.

É fácil compreender que os beneficiários do sistema religioso-ideológico-político, interessados na sua conservação, não viam o Nazareno com bons olhos. Ao contrário, o rejeitaram. Tramaram e executaram a sua morte. Esse processo repete-se através dos tempos. Grupos conservadores continuam a rejeitar o Deus que "faz novas todas as coisas, cria novos céus e nova terra". Engendram uma religião pseudocristã, legalista e ritualista. Substituem Jesus de Nazaré e sua palavra por uma caricatura intimista e emotiva, individualista, inofensiva frente aos sistemas de poder e dominação. Assim, conservam e atualizam cada vez a sua rejeição e morte. Que a "semana santa", além de orar, nos faça pensar.

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