O casamento, última saída?

O casamento, última saída? 

Laiz Soares

A adolescência é uma fase linda de decisões. Nela, as responsabilidades começam a crescer e nos vemos diante de escolhas importantes para nossa vida. Lembro como se fosse ontem da minha expectativa para os vestibulares, da dedicação e todo o esforço que tive dentro do Cefet-MG. Lembro-me dos cursos que considerei fazer antes de escolher de vez relações internacionais na PUC Minas.

Caminhar por essas memórias me traz uma nostalgia muito gostosa dessa fase tão importante, mas também me deixa indignada quando percebo que até mesmo o ato de escolher é um privilégio no nosso país – não temos a garantia nem mesmo do direito de trilharmos nosso futuro. 

Digo isso pois vi à minha volta meninas nessa mesma fase em meu bairro, L. P. Pereira, conformadas que o único futuro possível era um casamento enquanto ainda eram jovens. Sem investimento na Educação e com poucas condições, vi garotas entrando em relacionamentos abusivos.

O que vi durante minha adolescência em minha vizinhança não é algo isolado, mas, sim, a realidade do nosso país. Somos o 4° lugar no ranking mundial de casamentos precoces, aqueles que ocorrem na infância ou adolescência e podem ser tanto formais como informais.

As meninas que se casam nessa fase apresentam 50% mais chances de sofrer violência doméstica e o número de evasão escolar delas é muito maior. Além disso, o casamento prematuro aumenta o risco de gravidez precoce, que pode ocasionar em complicações e na mortalidade materna.

Essa união não é aleatória ou ocorre somente baseada em sentimentos, ela está relacionada a diversas vulnerabilidades sociais. Segundo o projeto Girls Not Brides, meninas de famílias pobres têm duas vezes e meia mais chance de se casarem antes dos 18 anos.

O casamento prematuro rouba uma fase importante do desenvolvimento das mulheres. Suas consequências são tão graves que eliminar essas uniões é parte dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), dentro da meta número 5: alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas.

Hoje, a Unicef se preocupa muito com os caminhos que o casamento infantil está tomando depois da crise econômica causada pela pandemia. Segundo pesquisa, dez milhões de casamentos infantis a mais podem acontecer antes do fim da década.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apenas em 2019, mais de 80.829 meninas de até 19 anos se casaram oficialmente no Brasil, sendo que 169 delas tinham menos de 15 anos de idade.

O casamento precoce é apenas um dos muitos efeitos da falta de oportunidades que nós, mulheres, temos na educação e no mercado de trabalho. As oportunidades nos libertam, elas são o combustível contra o ciclo de violência e a favor de nossa independência financeira.

Meninas tão novas não deveriam se preocupar com cuidar de um marido anos mais velho ou com filhos que poderiam ser seus irmãos. Quero ver as crianças e adolescentes da minha cidade sonhando com suas profissões, dedicadas nas escolas e com um Estado que lute pela vida e pelo direito delas. Quero ver o casamento como a união de duas pessoas maduras que se amam, e não como a única saída de uma jovem.

Todas as oportunidades e conquistas que tive na vida foram graças ao que a educação me proporcionou. Venho de uma família simples e sempre soube que era a partir de muito estudo que eu alcançaria um futuro melhor. Meu desejo é que mais mulheres tenham a educação como um caminho.

O investimento na educação é essencial para que meninas tenham oportunidades de crescimento e desenvolvimento de seus futuros. Investir na educação é investir na qualidade de vida das pessoas!

 

*Laiz Soares é formada em relações internacionais pela PUC Minas e pela Essca na França. Atuou liderando equipes e projetos no setor privado, em ONGs e no Congresso Nacional. Idealizadora da Escola de Líderes.

Comentários
×