Nessa vida, deveríamos ser eternos alunos

Nessa vida, deveríamos ser eternos alunos 

Todo dia eu busco aprender sobre o que eu não sei. Esses dias eu estava refletindo sobre a loucura que é a vida. Estou em um curso em que sou aluna e, ao mesmo tempo, em outro sou professora. Como é que pode isso? Nessa vida temos que buscar aprender sempre e nunca achar que estamos prontos, que sabemos o suficiente. Se abrir sempre. Estudar sempre. Reconhecer a nossa ignorância, a nossa limitação. Reconhecer que não sabemos de tudo e que o mundo não gira em torno do nosso umbigo, da nossa realidade. Entender que cada um sabe a dor e a beleza de ser quem é e que, por mais que eu me esforce para compreender o outro e ter empatia, só quem está sentindo a dor sabe o tamanho dela. Nós não temos o direito de subestimar a dor do outro, de menosprezar, de achar que entendemos, que sabemos como é. 

Tem algumas dores que são bem doídas, bem sofridas, que doem na alma, bem lá no fundo. Tem dores que vêm da ancestralidade, que passam de pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto. É uma dor que vai sendo reproduzida e reforçada ao longo da vida, pelas dificuldades que vão sendo enfrentadas no dia a dia. Assim é a dor, por exemplo, do povo negro no nosso país. Um povo foi escravizado durante quase 400 anos, quatro séculos, e só tem pouco mais de 130 anos que houve a abolição, e isso deixou marcas profundas nos seus descendentes e na sociedade. Temos muito mais tempo de escravidão na história recente do que liberdade, você já parou para pensar nisso? Você já imaginou a barbárie que era a escravidão? O dono do escravo podia bater, espancar, matar, violentar sexualmente, fazer o que quiser, porque os negros eram considerados desumanos, sem alma, não eram considerados gente! Essa violência é inaceitável, no mundo de hoje, graças a Deus e às lutas históricas, a maioria de nós não aceita que nenhum ser vivo seja maltratado, violentado, mas a sociedade e muitos de nossos ancestrais fizeram isso com pessoas negras pouco tempo atrás. Você já imaginou o quanto isso é grave? Imagina saber que seu pai passou por isso? Imagina saber que seu avô, bisavô, tataravô passou por isso? 

Os negros no Brasil são herdeiros de uma história dramática de barbaridade, da desumanidade, de dor e de violência. Quando a escravidão foi abolida formalmente, ela ainda se manteve presente. Os negros libertos não tinham estudo, não tinham experiência nem conhecimento com trabalhos que não fossem braçais. Eles não tinham para onde ir, ocuparam morros, periferias, locais inóspitos, e, desde então, já que não tem tanto tempo assim, eles moram e vivem, a maioria, em condições de vulnerabilidade social. Entende que tem uma questão histórica?

 Eu sou descendente de um avô negro e de outro branco de origem italiana. Os dois eram muito pobres, sem estudo. A vida do meu avô que tinha o olho azul era bem difícil e sofrida, e do meu pai, filho dele, também. Meu pai sempre foi muito esforçado, e o fato de ele ser um homem branco, bem aparentado, com padrões estéticos que o mundo considera bonito ajudou demais meu pai a conseguir as coisas, já que ele sempre trabalhou com vendas e com comércio, onde a imagem que você passa importa. Meu pai sempre foi um vendedor carismático, competente e muito bem aparentado, portanto, a imagem dele sempre foi convidativa, agradável, enquadrada dentro dos padrões estéticos aceitos facilmente pela sociedade, considerado um belo homem que passava confiança, e não medo, nem repulsa. Se meu pai fosse negro, considerando o mesmo esforço, competência e capacidade que meu pai teve, ele teria com certeza enfrentado muito mais dificuldades para ser vendedor, ainda mais quando ele começou a viajar e a vender “porta a porta”. Será que ele seria tão bem aceito e recebido por pessoas que nunca o viram? Tenho certeza que nem sempre não. As coisas teriam sido bem mais difíceis para o meu pai e para mim se ele e eu fôssemos negros. 

A cor da pele não muda em nada a inteligência e competência de alguém, mas muda muito, no Brasil, sobre o histórico de oportunidades de estudo e de trabalho que a sua família teve, dado o passado recente de escravidão. Muda também a resistência que as pessoas podem ter com você na rua, no trabalho, andando à noite de moletom na rua. Olhamos para um negro de terno e pensamos bem mais em um segurança do que em um advogado, promotor, juiz. Quantos médicos, políticos, empresários, advogados, dentistas, fazendeiros, arquitetos e engenheiros negros você conhece? Eu, pouquíssimos. Não é porque eles não querem ou não se esforçam, ou porque são menos inteligentes. É porque existem duas coisas científicas longamente estudadas no Brasil e no mundo: o racismo estrutural e o ciclo perverso da pobreza, que tende a se reproduzir de geração em geração. Se o seu pai é pobre e não teve acesso aos estudos, as suas chances de conseguir diminuem bastante. 

É estatística, é matemática. Se uma menina engravidou na adolescência com 14 anos, mora na periferia e é pobre, as chances de a filha dela também engravidar na adolescência são muito maiores do que as chances que a minha filha terá no futuro, porque os meus filhos terão acesso à educação porque eu tive. A falta de informação e de estudo tende a se perpetuar, a pobreza gera pobreza, assim como a riqueza também tende a gerar riqueza, estatisticamente. No caso dos negros, esse ciclo da pobreza se soma ao racismo estrutural, que esta presente em todos nós por causa dos 400 anos de escravidão. Ficou no inconsciente coletivo que o negro é inferior, é menos capaz, é uma ameaça, oferece perigo andando à noite, e pensamos isso sem querer, não é muitas vezes racional, é intuitivo, emocional, inconsciente. Todos somos em algum grau racistas, inclusive eu, a diferença é que alguns se esforçam para se descontruir, para evoluir, e outros não. 



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