Na mesa

Talvez você nunca tenha ouvido falar desses nomes, mas Luiz Grande, Marcos Diniz e Barbeirinho do Jacarezinho são donos de uma das músicas mais famosas do Brasil. Caviar, interpretada belamente na voz de Zeca Pagodinho, é muito mais que um pagode, é praticamente o retrato do Brasil. Lançada no início dos anos 2000, a letra da música traz uma grande reflexão: “Na mesa de poucos, fartura adoidado, mas se olhar pro lado depara com a fome”. Entre outros pontos, talvez esse seja o que mais chama a atenção, pois retrata de forma fiel o cenário da época, mas também atual do país. 

Foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) de ontem o decreto do Congresso Nacional que aumenta os salários dos deputados federais e senadores, ministros de Estado, além do presidente e vice-presidente da República. Para quem ainda não entendeu muito bem, atualmente o presidente recebe R$ 30.934,70 e os deputados e senadores, R$ 33.763,00. Pela proposta, os salários vão subir progressivamente até atingir um teto de R$ 46,3 mil. A justificativa do projeto é equiparar o salário do presidente aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que, em agosto, definiram o próprio salário em R$ 46,3 mil. 

Isso ainda sem falar nos inúmeros auxílios que todos recebem. Por aqui, de um lado tem-se os ‘super salários’ parlamentares, que ficam na média de R$ 41.650, enquanto a média salarial de um cidadão comum é de R$ 2.737 e o salário mínimo não chega a R$ 1.500. Não é possível mensurar o que este cenário causa. Revolta? Tristeza? Desesperança? Talvez esses sejam alguns dos sentimentos trazidos por essa discrepância sem fim. É como disse muito bem Luiz Grande, Marcos Diniz e Barbeirinho do Jacarezinho: “Na mesa de poucos, fartura adoidado, mas se olhar pro lado depara com a fome”. Aqueles que deveriam trabalhar para que este cenário fosse o menos diferente possível fazem justamente o contrário. 

É aí que vem a pergunta: você sabe o que é caviar?  O Segundo Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar apontou que 33,1 milhões de pessoas não têm garantido o que comer – o que representa 14 milhões de novos brasileiros em situação de fome. Sim! Anos se passaram e a canção continua atual. De um lado, o brasileiro que acorda e não sabe se terá o que comer no fim do dia. De outro, políticos que esbanjam com o dinheiro público e, o pior, ainda fazem discursos demagogos, que não colocam o pão na mesa desses milhões de brasileiros. 

Mas se os ‘super salários’ já eram difíceis de “engolir”, o que torna tudo pior é a inércia do brasileiro, que não é capaz de lutar pelos seus direitos. Alguns apenas se revoltam, com um texto em rede social vez ou outra, outros ainda conseguem transformar governantes em “políticos de estimação”. Então, neste ritmo, infelizmente, o que se tem é de fato isso: fartura para poucos e miséria para muitos. Algumas mesas fartas, e outras vazias.

 

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