Mulheres são mais afetadas em momentos de crise

LAIZ SOARES 

Mulheres são mais afetadas em momentos de crise

“Basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados”, essa frase tão marcante foi dita por Simone de Beauvoir, durante o século XX. Quando eu escutava essa afirmativa antes da pandemia, sempre me lembrava de fatos históricos, das desigualdades que já enfrentamos e de como superamos algumas delas. Com a pandemia, percebi o quão concreta essa frase é e como nossos direitos não estão seguros.

Durante a primeira onda da covid-19, quando começamos a enfrentar essa pandemia e estávamos cheios de incertezas, me recordei dessa frase. Apenas na primeira semana da quarentena houve o aumento de denúncias em 9% de mulheres que sofreram violência doméstica, de acordo com dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. 

No início da pandemia, quando começou o isolamento de alguns países, a Organização das Nações Unidas (ONU) Mulheres disparou um alerta mundial advertindo autoridades políticas, sanitárias e organizações sociais de como a pandemia da covid-19 e o isolamento social viriam a afetar as mulheres no que diz respeito à sobrecarga de trabalho, com aumento dos índices de violência doméstica e diminuição da circulação nos serviços de atendimento. 

 

A pandemia da covid alterou os rumos da humanidade e agravou ainda mais as desigualdades sociais que já existiam, dentre elas a de gênero. As mulheres foram de longe as mais afetadas, principalmente pelo fato de atuarem mais em serviços, setor duramente atingido pela crise sanitária, e por acumularem as tarefas domésticas, cuja demanda de trabalho aumentou significativamente com os filhos fora do ambiente escolar.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgada em junho de 2020, já mostrava que as mulheres dedicam 10,4 horas por semana a mais do que os homens com afazeres domésticos. A economista Maria Andreia Lameiras, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), declarou que “a primeira medida de isolamento foi a interrupção das aulas. Em casa, por exemplo, não tem quem cuide das crianças”, diz, destacando que a responsabilidade recai sobre a mulher, e muitas tiveram que abandonar o mercado para cuidar dos filhos, além de serem as primeiras a ser demitidas.

A professora do Departamento de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Daniela Freddo, reforça esse argumento: “o mercado é machista. Em um período de expansão econômica, você consegue inserir mulher, mulher negra, que é ainda mais difícil. Mas, num momento de intervalo, elas são as primeiras a serem dispensadas”, afirma.

Além do alto índice de desemprego no Brasil, a presença das mulheres no mercado de trabalho no país caiu ao menor índice nos últimos 30 anos. De acordo com o Ministério do Trabalho (MT), das 480 mil pessoas demitidas em 2020, 462 mil eram mulheres.

Já a Pnad Contínua, realizada pelo IBGE, mostra que cerca de 7 milhões de mulheres abandonaram seus postos de trabalho quando se iniciou a pandemia. 2 milhões a mais do que os homens na mesma situação.

As mulheres, principalmente as de baixa renda - chefes de família e com filhos -, infelizmente foram as mais afetadas pela pandemia de muitos modos: fechamento de creches e escolas, extinção de renda, inviabilidade de realizar medidas de distanciamento social, além da violência doméstica. A gravidade dessas decorrências da pandemia sobre as mulheres se torna mais clara diante de dados trazidos pelo Monitor da Violência. 

Estamos diante de uma nova onda da covid, continuamos nesta crise que já tirou a vida e os direitos de tantas mulheres. A crise sanitária que enfrentamos também é uma crise de direitos. Por isso, ao pensar em leis e projetos para diminuir os impactos da pandemia é preciso perpassar as desigualdades que foram aumentadas nestes últimos anos.

Não abro mão do meu direito, da minha dignidade. Nós, mulheres, nos reinventamos em nossas áreas de trabalho, nós auxiliamos nossos lares, mulheres foram na linha de frente desta pandemia e continuamos lutando mesmo diante de todos os desafios. Nossos direitos não são negociáveis! 

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