Momento delicado

CESAR VANUCCI

Momento delicado

O Brasil esmagado por avalancha de problemas graves, sem solução à vista, e o governo, imperturbável, simples e constrangedoramente “na dele”, como se diz no papear coloquial. Inoperante, sem tugir nem mugir no tocante a tudo. Tudo quieto que nem penedo. Ninguém, dos redutos brasilienses, anima-se vir a público para anunciar projetos de desenvolvimento, propostas que abram frentes de trabalho, medidas capazes de atenuar os padecimentos da população, sobretudo, dos mais desguarnecidos socialmente. Procede-se como se nada do que está rolando tivesse a ver com os deveres institucionais dos que foram convocados, debaixo de muita expectativa positiva, a gerir os negócios públicos e promover o desenvolvimento social e econômico que assegure o bem-estar coletivo. Calado, trazendo intranquilidade e frustração com tão inexplicável procedimento, o governo demonstra, entretanto, disposição desassossegante para fomentar discussões estéreis em torno de situações já devidamente equacionadas, praticando politiquice vulgar com intuitos que colidem com os preceitos republicanos. Temos aí, outra vez, trazida impertinentemente pelo presidente Bolsonaro, uma polêmica desnecessária, sobre a lisura do processo eleitoral eletrônico. S. Exa. retoma a tese, desgastadíssima, de que as urnas eletrônicas utilizadas no modelar processo eletivo brasileiro, pelo qual, aliás, tornou-se presidente da República com consagradora votação, são vulneráveis a fraudes. Obrigou com mais essa intempestiva manifestação o Colegiado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a reafirmar a excelência e padrão de qualidade do esquema de votação adotado, juntando pareceres inquestionáveis, conclusivos, de organizações especializadas acerca da impecável retidão observada em toda a tramitação do processo do registro do voto à apuração. A nova tentativa de desmerecer o sistema eleitoral falhou mais uma vez. Vale, a propósito, tomar ciência de algumas considerações, bastante lúcidas com enfoque democrático formuladas pelo ministro Luís Roberto Barroso, que está deixando o posto de presidente do TSE, passando o bastão de comando ao ministro Edson Fachin. Diz ele: “A mim, como presidente do Tribunal, cabe apenas rebater o que se disse de inverídico em relação à Justiça Eleitoral. Faço isso em nome dos milhares de juízes e servidores que servem ao Brasil com patriotismo – não o da retórica de palanque, mas o do trabalho duro e dedicado –, e que não devem ficar indefesos diante da linguagem abusiva e da mentira. Já começa a ficar cansativo, no Brasil, ter que repetidamente desmentir falsidades, para que não sejamos dominados pela pós-verdade, pelos fatos alternativos, para que a repetição da mentira não crie a impressão de que ela se tornou verdade”. Resumindo: É muito triste o ponto a que chegamos.

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