Manifestação em Cemitério reúne cerca de 200 pessoas

Cartazes, orações e emoção marcaram encontro de familiares que convivem com a dor do desabamento desde o ano passado

 

Bruno Bueno

A manifestação de quem perdeu os restos mortais de seus familiares, que estavam nos túmulos que caíram no Cemitério da Paz  no ano passado, reuniu, conforme relato da organização, cerca de 200 pessoas na manhã do feriado de Finados. Em janeiro de 2020, parte da obra feita ao lado do muro na rua Goiás desabou e levou junto aproximadamente 30 jazigos.

Segundo os participantes, o protesto ocorreu com  o propósito de expor a  revolta dos familiares que passaram mais um ano sem poder prestar homenagens a seus entes queridos. Eles também reclamam do atraso na identificação dos corpos. O Agora esteve no local e constatou a presença de vários cartazes que estavam afixados na porta do Cemitério. Nos cartazes, frases cobrando atitudes da empresa considerada responsável pela tragédia eram notadas.

— Mais um ano sem identificação dos restos mortais de meus pais e do irmão, onde homenageá-los neste Finados? — dizia um deles. 

 

Depoimento

A presidente da Associação dos Jazigos do Cemitério da Paz, Andrea Maria Maciel Rocha e Machado, esteve no local e conversou com a reportagem. A mulher, que tinha sete familiares enterrados na área que desabou, disse que vários parentes não sabiam que alguns túmulos foram demolidos para a realização de obras de reparo.

— O número de participantes foi muito bom. O que mais me impressionou foi que, mesmo dois anos depois, tem gente que não sabia que alguns restos mortais foram exumados e seus túmulos demolidos para a realização de obras no local. Chegaram e simplesmente não sabiam. Foram vários — ressaltou.

Andrea deu mais detalhes sobre a situação. Segundo ela, a Prefeitura tentou avisar todas as famílias envolvidas sobre a realização das obras.

— A situação aconteceu comigo. Os jazigos da minha família materna foram demolidos, mas a Prefeitura nos comunicou prontamente. Acredito que eles tenham tentado se comunicar com todas as famílias, mas alguns não responderam. Tudo isso me causou espanto — afirmou.

 

Decepção e motivação

A mulher finalizou seu depoimento afirmando que o protesto traz um misto de motivação e decepção com a realidade dos fatos.

— Estamos motivados. No entanto, várias pessoas que conhecem os proprietários da empresa nos informaram que eles disseram que a manifestação foi feita em vão, porque eles não estão nem aí e irão continuar descumprindo as ordens. É um misto de decepção e vontade de continuar lutando. É um absurdo! — relatou.

 

Memorial

Um memorial para abrigar provisoriamente os restos mortais atingidos pelo desabamento foi construído na capela de São Miguel, localizada no centro do Cemitério. O local foi alvo de melhorias e recebeu pintura, parte elétrica, velário, forro e telhas novas. A reforma foi feita pela empresa considerada responsável pela obra após autorização do Executivo.

O intuito das novas instalações, conforme nota divulgada pelos responsáveis da obra, acontece para garantir a oração e a visitação das pessoas que perderam os túmulos onde os restos mortais de seus familiares foram enterrados.

 

Insuficiente

No entanto, em reportagem publicada pelo Agora neste feriado de Finados, o advogado Muller Oliveira, um dos profissionais atuantes na Associação dos Advogados dos Familiares, declarou que o memorial não é suficiente para atender à demanda dos atingidos.

— Eles querem colocar uma vala comum para colocar todos os corpos misturados e fazer um memorial. Os associados não aceitam isso. Eles querem a identificação de todos os corpos — disse.

 

O profissional também declarou a revolta dos envolvidos no caso com mais um ano sem resolução para a identificação dos restos mortais.

— A posição da Associação é de muita revolta. Esse é o segundo feriado de Dia de Finados que os familiares não podem visitar seus entes queridos que estavam sepultados na região que desmoronou. (...) O que mais causa o lamento dos familiares é a posição dos empreendedores que se negam a fazer a identificação dos corpos — disse.

 

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