Longas semanas pela frente…

Longas semanas pela frente…

O palco já está montado. As cadeiras vazias aguardam a chegada dos participantes. Os questionamentos são muitos alguns esperados, outros guardados a sete chaves. As respostas são incertas. Nesta manhã, a CPI da Educação dá seu mais importante passo: o início das oitivas. Servidores serão ouvidos sobre possíveis irregularidades em compras da Secretaria de Educação (Semed) no ano passado. A primeira a depor é uma das peças chaves da investigação, Andreia Dimas, que estava à frente da pasta quando o investimento foi feito. Semanas após a instauração da comissão, ela foi afastada temporariamente do cargo. 

Esse foi o primeiro passo concreto da administração municipal na tentativa de se preservar das críticas que vinha sofrendo, após semanas defendendo o investimento e a própria secretária. Antes mesmo do afastamento, vereadores já acusavam o governo municipal de agir para frear o avanço da CPI, informação negada pela Prefeitura.

Uma das testemunhas convocadas para depor nas oitivas, o diretor de Contabilidade Geral, Agilson Emerson da Silva, também foi exonerado de seu cargo, mas a atual Administração nega ligação com a investigação conduzida pela Câmara. O argumento para a saída, após anos na função, é a necessidade de renovação. O timing é, no mínimo, curioso, apesar das justificativas apresentadas. Por que a alegada renovação  é feita somente agora, próxima à convocação do servidor? Por qual motivo não foi feita um ano e meio antes, quando a atual gestão assumiu? Todo seu trabalho à frente do setor se resumiu a um agradecimento em uma nota de esclarecimento. A tão prometida valorização dos servidores se tornou mais uma promessa dissolvida em meio ao furacão. 

Não há como negar, no entanto, o movimento das engrenagens internas no Centro Administrativo, resultado do incômodo com a situação. Quando pouco aborda o tema, o prefeito Gleidson Azevedo (PSC) aparece com comportamento diferente ao adotado inicialmente, quando a denúncia foi apresentada, ainda informalmente, no Plenário do Legislativo. Na época, aparecia ao lado da ex-secretária em defesa dos investimentos. Agora, ele se isenta da responsabilidade e aponta desconhecimento das questões técnicas sobre o tema. Um governo que prometeu ser técnico como vários prometem, como se fosse diferencial e não o mínimo se envolveu num desgaste e numa compra suspeita de cifras milionárias. Um desgaste que poderia ter sido evitado com, além de experiência, rigor técnico. No mar calmo, todos se passam por marinheiros qualificados. Quando a água se torna inquieta, no entanto, os maus navegadores são expostos em claro sinal de despreparo para lidar com a tempestade que se aproxima, e só lhes resta abandonar o leme, entregar a responsabilidade aos demais e pular do barco. 

A CPI já tem em mãos uma série de documentos e indícios, como suspeita de formação de cartel entre as empresas envolvidas nas atas aderidas pela secretaria, que hão de ser confirmados ou descartados nos próximos meses. A principal tese nos bastidores da Câmara é de falta de planejamento e desorganização, o que teria gerado compras desesperadas para evitar o desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Ou seja, não necessariamente houve crime, como desvio, apenas uma má administração na aplicação dos recursos públicos, o que cabe à comissão apurar se houve erros, quais foram e quem são os responsáveis. 

 Antes mesmo de um parecer, os dois lados da moeda estão polidos e claros, cada qual enevoados por seus interesses. De um lado, persiste a narrativa de perseguição contra o prefeito e, em especial, seu irmão, o deputado estadual Cleitinho Azevedo (PSC), pré-candidato ao Senado, que inclusive criticou publicamente as compras. Do outro, as consciências já se convenceram de que houve erro.

A comissão inicia hoje as oitivas em busca de esclarecimentos, confirmações, negações e, quem sabe, deslizes. Os equívocos, neste emaranhado cenário, podem ser mais esclarecedores do que a própria verdade. 

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