Jeitinho brasileiro

Jeitinho brasileiro

Pode-se afirmar que uma das piores culturas que o Brasil tem é a do “remediar” tratando a prevenção como desnecessária. Talvez essa seja a explicação para que um país tão grande e tão rico continue pobre. É simplesmente impossível sequer sonhar com uma nação desenvolvida enquanto tudo for feito dessa forma, a “toque de caixa”, com aquele velho e conhecido “jeitinho brasileiro”. Divinópolis, com certeza, é um belo exemplo de que o “jeitinho brasileiro” não funciona e em muitos casos mata. No último domingo, por exemplo, uma mulher, de 56 anos, morreu atropelada na MG-050, na entrada do bairro Quintino. Segundo relatos, a vítima tentou atravessar a rodovia quando foi atingida por um carro e morreu na hora. Quem viu as fotos que circularam nas redes sociais – sim, este é outro problema que a sociedade enfrenta – pôde constatar a brutalidade do acidente, que só aconteceu por um único motivo: o jeitinho brasileiro. Há mais de 30 anos, aquele trecho da MG-050 é tido e denunciado um sério problema. Muita gente não deve se lembrar, mas, no dia 28 de julho de 2006, uma família – pai, dois filhos e uma sobrinha – morreu naquele local, em uma batida de carros. A fatalidade, na época, chocou a população da cidade e região. Mas, como estamos no Brasil, a indignação durou apenas “na época”. Porque, além dos remendos dos representantes do povo, tem outro problema: o brasileiro tem memória curta. De julho de 2006 para cá, a luta para que o trecho recebesse as devidas melhorias foi grande. Diversas lideranças políticas, a vereadora Ana Paula do Quintino (PSC), que na época era representante de bairro, se uniram e cobraram intensamente para que a entrada do bairro fosse melhorada. Após diversos atrasos e alterações no projeto, a obra finalmente foi concluída. Mas, como se trata de Brasil, foi entregue – e ficou – pelas metades. Apesar de ter recebido as devidas melhorias, o trecho estava sem iluminação pública, e o pior, sem travessia de pedestres. 

Sim! Quase um ano após ter sido entregue, a obra permanecia sem iluminação e sem travessia de pedestre, mesmo tendo um ponto de ônibus em um dos quilômetros mais movimentados da via. Toda essa situação pode ser resumida em apenas uma frase: isso é Brasil! Esse é o jeitinho brasileiro! Aqui nada se previne, tudo se remedia. Tudo é feito de qualquer jeito. E o pior: pessoas morrem todos os dias justamente por causa disso. Desse “jeitinho” que mata. Depois de mais uma vida ter sido tirada por causa da negligência brasileira, a única certeza que o divinopolitano pode ter neste momento é que em breve a iluminação pública e a travessia de pedestre serão providenciadas. Sim! Por aqui é preciso morrer para que algumas coisas se resolvam. O pior disso tudo é que, quando uma tragédia traz uma solução, o povo pode se considerar “sortudo”, pois, na maioria das vezes – como no caso das barragens em Minas Gerais –, pessoas morrem e tudo continua exatamente igual. 

Talvez o problema do Brasil não seja apenas a falta de gestão, a falta de responsabilidade e planejamento dos governantes, mas esse “jeitinho brasileiro”, que tudo aceita, que tudo esquece e que seleciona quais causas valem a pena cobrar ou não, fazer ou empurrar com a barriga. Do lado de cá, o desejo é que mais ninguém pague uma conta que não é sua.

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