Itapecerica precisa ser estudada

CRÔNICAS DEMOCRÁTICAS


Márcio Almeida


Pedindo licença aos leitores e leitoras habituados a encontrar aqui os temas da política, o colunista conta sua recente experiência turística e gastronômica na mais antiga cidade do Oeste de Minas.

Itapecerica precisa ser estudada. Foi o que me ocorreu no sábado, 18, enquanto eu ia do angu com couve ao joelho de porco, com escala na linguiça de fígado bovino recheada com jiló, tudo devidamente regado por um dos rótulos da Cervejaria Magnólia. Sim, precisamos estudar Itapecerica. Afinal, que outra cidade de Minas com pouco mais de 20 mil habitantes criou do zero um festival de gastronomia rural que neste ano atraiu um público quatro vezes maior do que a sua população?

E que outro município mineiro ousou criar, também do zero, um festival de inverno capaz de enfrentar a ditadura estética que hoje oferece ao público os mesmos artistas e gêneros musicais? Neste festival, para ficar apenas com um punhado de nomes, cabem Geraldo Azevedo e Amado Batista, Alceu Valença e Nando Reis, Roupa Nova e Almir Sater. Nele cabe a rica diversidade musical brasileira, que parece ter fugido a galope dos rodeios e exposições agropecuárias que têm ocorrido de Roraima ao Rio Grande do Sul.

 

Vocação

Circulando entre churrasqueiras e charmosos fornos a lenha montados sobre o paralelepípedo das ruas, também me ocorreu que, tanto quanto os eventos, merece ser estudada a notável capacidade itapecericana de atrair visitantes. Só uma vocação genuína para receber — pensei eu com o paladar e a audição de visitante — seria capaz de driblar a crise econômica, que a pandemia tornou mais grave, e colocar os festivais de gastronomia e de inverno na lista dos mais significativos eventos do calendário mineiro deste ano.

Só essa vocação, acredito, explica o fato de que em Itapecerica os festivais não acabam junto com os governos que os criaram. Tornam-se patrimônio da cultura e da economia local e vão amadurecendo, como cachaça guardada em tonel de madeira, enquanto a maioria dos municípios vê seus eventos evaporarem após três ou quatro tentativas. Os números aí estão: o festival de gastronomia chegou à 14ª edição. O de inverno, em julho, está indo para a 27ª. Renovados após o intervalo pandêmico, ambos demonstram vigor para ir longe.

Como todo interiorano que desde criança ouve prefeitos lamentando a dificuldade de fazer eventos e delegando isso apenas à iniciativa privada, não deixo de me espantar com o fato de os dois festivais itapecericanos serem bons exemplos de políticas públicas. Em Itapecerica, onde se administra com criatividade, o poder público não precisa renunciar à sua contribuição para as agendas cultural e econômica do município. E fazendo escolhas sensatas, que geram renda e trabalho, não precisa ter receio de realizar investimentos.

Saboreando um gole do Hilda Calorão, magnífico rótulo da Magnólia que homenageia uma figura local, perguntei a mim mesmo em quantas cidades do interior se encontra uma concepção tão bem resolvida do papel da administração pública. No festival de gastronomia deste ano, segundo a mídia, investiu-se mais de meio milhão de reais. E nenhum munícipe, pelo que me consta, queixou-se da falta de resultados para a imagem e a economia de Itapecerica, esta terra em que o pão de queijo, símbolo gastronômico da mineiridade, foi recentemente transformado em questão política de repercussão nacional.


Capelinha

Sim, é preciso estudar Itapecerica. Há algo a aprender em uma cidade de forte tradição católica que, entendendo o Cristianismo como amor e não como preconceito, elegeu prefeito, por duas vezes, um membro do segmento LGBTQIA+. Este mesmo prefeito, aliás, depois de se revelar um dos melhores administradores que o interior de Minas tem visto, mobilizou a comunidade cristã para construir no alto de um morro, sem recursos públicos, uma delicada capelinha que agora é símbolo de religião esclarecida.

Com a imaginação passeando entre as igrejas e as barracas do festival, sempre guiado pela Magnólia, concluí que também merece ser estudado o apego que os itapecericanos têm com a arte, incluindo seu aguçado senso de preservação cultural. Foi impossível, aliás, não me lembrar de ter feito antes da pandemia uma palestra sobre poesia na Feira Literária de Itapecerica (sim, a cidade tem a sua própria feira de livros), na qual constatei, encantado, que estavam na plateia donas de casa, comerciantes e gente comum que ama ler.

Em especial, merece ser estudado o peculiaríssimo caso de amor coletivo dos itapecericanos com a música, sacra ou profana. Porque, além de sacerdotes católicos — entre eles Dom Antônio Carlos Mesquita, saudoso amigo de minha família em Oliveira —, a cidade produz músicos em abundância. Em Itapecerica, onde o antigo e sofisticado ofício de “luthier” (fabricante de instrumentos) se mantém vivo, técnicos em refrigeração são também guitarristas e ex-alunos das corporações musicais se tornam solistas de filarmônica.

Se as razões anteriores não bastassem para justificar o estudo de Itapecerica, ainda se poderia lembrar a versatilidade da terra do grande Gabriel Passos e do corajoso José Ribeiro Pena, essa terra que produz maquiadores capazes de se tornar gestores públicos, empresários bem-sucedidos que se transformam em desenvoltos apresentadores de TV e mulheres que fundem beleza e capacidade de trabalho na vida pública, na arte, no comércio, na educação, no funcionalismo, nas profissões liberais e onde mais resolvem atuar.

A propósito, isso me lembra o ilustre ciclista divinopolitano Daniel Bicalho, que nas horas vagas é editor, escritor e livreiro, além de agitador cultural, cantor, pai de músico e marido de uma talentosa artista e contadora de histórias. Versado no assunto, Daniel sustenta que, além de padres e cozinheiros, de músicos e políticos, de cervejeiros, fabricantes de queijo e escritores de primeira qualidade, Itapecerica produz bons partidos para casamento duradouro. Não serei eu, um quase cinquentão solteiro, que haverei de discordar.

Márcio Almeida, natural de Oliveira (MG), reside há mais de uma década em Divinópolis, onde é professor, jornalista e analista político.

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