Imbroxável para os pobres

A imbroxabilidade é a mais recente bizarrice gramatical introjectada - em dose cavalar - nas veias abertas do vocabulário cambaleante nacional, complicada e sem explicação linguística para os mais jovens, tão defendidos pelo puritanismo que a criou, fazendo-os ainda mais letárgicos e costumados aos paradoxos de tiros-versículos que representam bem a hipocrisia do pseudocristã, aquela esbraveja ódio com a Bíblia debaixo do braço escondendo a arma.

Certo é que o tal detentor da imbroxabilidade - sempre escondido entre dezenas de seguranças - o é com um público bem específico, vale dizer, mulheres próximas, opositores distantes e pobres bem mais distantes ainda. Por outro lado, ao se deparar com grupos econômicos devedores de impostos, igrejas clandestinas falidas, gangue do centrão ou capitães do mato da agromáfia, aí a coisa broxa mansamente, tão mansamente como tchutchuca.

A transformação do imbroxável em tchutchuca se dá pelo medo dos covardes diante da pandemia, dos crimes ambientais, do genocídio indígena, do orçamento secreto, das contas secretas no exterior, dos imóveis em dinheiro vivo, das rachadinhas e outras dezenas de crimes que a Tchutchucadoria Geral também não apura, nem deixa apurar.

Por outro lado, se o assunto é pobreza, o imbroxável vem com tudo. A última valentia contra os vulneráveis vai atingir o programa FARMÁCIA POPULAR, criado em 2004 e que atende aproximadamente 25 milhões de brasileiros descapacitados financeiramente.  Ocorreu que a imbroxabilidade enviou proposta para o orçamento de 2023 com um corte de 59% nos recursos originais. 

Claro que é uma manobra para atender ao centrão e ao crime organizado do orçamento secreto, mediante o estelionato das “emendas do relator”, aquelas verbas fingem que vão, mas não vão.

Isso corresponde à parte do preço de se poder gritar  imbroxável em via pública e não ser sedado, dominado e internado em um hospício, e sem responder devidamente pelas barbáries em série praticadas.

O imbroxável de Brasília é um Shylock (vide “O Mercador de Veneza”), que vem cortando libras de carnes do peito dos brasileiros carentes, sem que haja uma pórcia capaz de protegê-los. Somente uma figura feminina como ela para por fim à tal imbroxabilidade do repugnante invotável.

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