Idosos eram amarrados e amordaçados, revelam denúncias

Ex-funcionários e familiares relatam negligência, agressões e pelo menos duas mortes na Vila Vicentina

 Bruno Bueno

Gisele Souto

Os divinopolitanos foram surpreendidos no início desta semana com a divulgação de supostas irregularidades que estariam sendo praticadas contra idosos na Vila Vicentina, no bairro Niterói. As denúncias, no entanto, não se resumem a medicamentos vencidos, negligência e ausência de profissionais. 

A reportagem ouviu, ontem à tarde, inúmeros relatos estarrecedores de ex-funcionários e familiares. Segundo eles, alguns idosos eram constantemente amarrados, amordaçados, trancafiados e obrigados a realizar suas necessidades básicas, sem qualquer tipo de privacidade, em baldes. Ao menos duas mortes atribuídas a negligência, especialmente de duas freiras que seriam responsáveis pela gestão da unidade, foram denunciadas com exclusividade ao Agora.

As freiras, que já foram afastadas, também são acusadas de agressão física e verbal contra os idosos, além de assédio moral e ameaças a funcionários que pelo menos falassem em contar sobre o que ocorria na Vila. Banhos de água fria, acúmulo de fezes e urina, e medicamentos ministrados sem prescrição médica também fazem parte das  crueldades praticadas, conforme as denúncias.

Mortes

Com medo, os denunciantes preferem não se identificar. Uma ex-funcionária atribui a morte de uma idosa engasgada à negligência de uma das irmãs. Segundo ela, a freira proibiu que cuidadores acionassem o Serviço de Emergência (Samu) para socorrer a vítima.

— Os cuidadores falaram para chamar o Samu, mas a irmã não deixou. A freira disse para só observar ela. A mulher morreu no local sem qualquer tipo de atendimento. Depois fizeram uma capacitação para os cuidadores saberem como proceder nesse tipo de situação. Infelizmente só fizeram depois que alguém morreu — afirmou.

Outra morte  é atribuída ao suposto descaso das irmãs. Uma mulher, que também prefere não se identificar, contou que uma das freiras não prestou qualquer tipo de atendimento para evitar a perda de sua tia.

— A irmã me relatou que minha tia passou mal durante todo o dia, reclamando de dores e que ela [freira] disse que ia ficar tudo bem. Me contou também que encontrou minha tia na cama, à noite, se queixando de muitas dores. Nesse momento, ela [freira] segurou a mão da minha tia e disse para ela ir com Deus. Minha tia faleceu na hora, sem receber ajuda — disse.

Indignação

Emocionada, a sobrinha da vítima relatou sua indignação com o caso. Segundo ela, sua tia foi morar na Vila em março de 2020 e morreu em agosto de 2021. 

— Deixei ela saudável e em perfeitas condições. No dia, inclusive, a irmã me disse que qualquer problema médico  me informaria através de uma ligação. Ela nunca me ligou, apenas quando minha tia faleceu — conta.

E continuou:

— Ela faleceu domingo às 22h. A irmã só me ligou na segunda às 9h. Quando cheguei ao local, todos os procedimentos para o velório já estavam prontos. Já tinham aberto um espaço, encomendado um caixão, flores etc. Tudo isso sem meu consentimento. Quando disse que queria que ela fosse enterrada junto com a minha família, ainda ficaram com raiva. No caixão, ainda por cima, vi que ela estava machucada — ressalta.

As freiras acusadas são novamente citadas pela sobrinha da vítima. Outra denúncia feita pela mulher diz que a irmã atribuiu a morte de sua tia a um infarto. 

Ela rebate

— O atestado de óbito disse que ela teve tromboembolismo pulmonar — revela.

Conta que sua tia passou mal o dia inteiro e não foi prestado nenhum socorro. 

— No dia do velório me contaram que os idosos chegam saudáveis e ficam doentes. Foram muitos velórios durante a pandemia. Outros relataram sobre maus-tratos, mortes suspeitas etc. A irmã cancelou as visitas durante a pandemia, parecia que ela queria esconder alguma coisa —  prossegue.

A sobrinha relembra com carinho de sua parente e detalha por que ela foi levada para a Vila. Para ela, sua tia foi um “óbito causado”, que poderia ter sido evitado.

— Quando eu via minha tia, ela me pedia para ir embora. Ela era de outra cidade e, após desenvolver um problema mental, veio morar comigo aqui em Divinópolis. Cuidei dela por oito anos, mas, quando minha avó desenvolveu Alzheimer, não consegui conciliar os cuidados com as duas. Com pesar, tive que colocá-la na Vila com a esperança de retirá-la o mais breve possível. Era uma morte evitada — relatou.

Freiras

As freiras também foram objetos de denúncia de uma outra ex-funcionária. Segundo ela, o autoritarismo pregado pelas irmãs prejudicava o ambiente de trabalho e impedia que providências fossem tomadas. 

— Eram duas irmãs que moravam lá. O problema é que tudo tinha que passar por elas e as mesmas não tinham conhecimento técnico para administrar um local que abrigava 80 idosos. Eu via muito descaso com os moradores pela falta de conhecimento e, principalmente, por um autoritarismo desnecessário por parte delas — enfatizou.

A ex-funcionária não isenta a culpa da administração da Vila Vicentina.

— Nós tentávamos conversar na tentativa de conduzir de uma forma melhor, mas elas não aceitavam. A diretoria sempre “passou pano” nas atitudes delas. Como eu não aceitava isso, a administração não gostou e me excluiu das atividades. E olha que eu só passava por lá uma vez na semana — acrescentou.

‘Amarrados como animais’

O relato da ex-funcionária fica mais tenebroso a cada revelação. Dessa vez, afirma que idosos eram amarrados de forma incorreta, com mãos e pés atados, sem qualquer tipo de flexibilidade. Conforme a acusação, eles também eram trancafiados em espaços pequenos que não possuíam banheiros, o que obrigava-os a realizar suas necessidades básicas de forma desumana.

— Alguns idosos ficavam contidos de forma errada. Eram amarrados como animais. Os homens e mulheres com dificuldade psicológica ficavam presos na área de circulação que era muito pequena. Não tinha banheiros, então eles faziam as necessidades dentro de um balde. Pessoas do mesmo sexo tomavam banhos todos juntos, sem qualquer tipo de privacidade — pontuou.

As irregularidades averiguadas pela Vigilância Sanitária acontecem, segundo a ex-funcionária, há muito tempo, mas afirma que deixavam tudo pronto antes de os fiscais chegarem. 

— Eu alertava sobre tudo que acontecia. Os advogados fingem não veem. Alguém sempre ficava sabendo sobre as inspeções e deixavam tudo pronto antes da fiscalização. Provável que havia alguém da Prefeitura ciente. Enquanto a atual administração da unidade não sair, nada vai mudar — disse

Outra ex-funcionária conta que foi demitida ao indicar que denunciaria os fatos presenciados por ela. O assédio moral era praticado por uma das freiras.

— Teve uma reunião com vários funcionários onde a irmã disse que não queria saber de denúncias sobre o local. Eu falei que não iria ficar calada pois muitos maus-tratos estavam acontecendo. Quando voltei de férias, me demitiram com medo de eu falar alguma coisa — afirma.

À reportagem, a funcionária demitida confirmou os relatos de seus ex-colegas e clamou que as autoridades apurem verdadeiramente o caso.

— Já vi idosos amarrados, amordaçados e defecando entre si. Eu questionava o porquê disso, falei que eles precisavam da gente e perguntei se fossem as mães ou pais deles que estivessem nessa situação se eles agiriam da mesma forma. É preciso que a justiça seja feita — prossegue.

Prefeitura

Parte dessas denúncias foram confirmadas pela Prefeitura em nota divulgada no último fim de semana. De acordo com o Executivo, a Vigilância Sanitária esteve no local no dia 12 e presenciou algumas irregularidades. Uma reunião com membros da Comissão de Saúde e do Idoso da Câmara, Assistência Social, representantes da Instituição São Vicente de Paulo, Vigilância Sanitária e outros foi realizada no dia seguinte.

— Na oportunidade, foi apresentada e discutida a situação para, de forma conjunta, tentarem encontrar uma solução e sanar as irregularidades sanitárias encontradas após a vistoria realizada pela Vigilância Sanitária. As medidas a serem tomadas estão sendo discutidas e serão resolvidas dentro da legalidade — afirmou o Executivo.

Ainda segundo a Prefeitura, todo o caso está sendo acompanhado pelo Ministério Público (MP).

— O Município não medirá esforços para garantir o bem-estar dos idosos da cidade, seja em clínicas particulares ou instituições filantrópicas — finalizou.

Mesmo com a Vila Vicentina interditada, o Executivo confirmou que os idosos continuam no local. Ainda segundo a Prefeitura, a Vigilância Sanitária não realizava inspeções marcadas e as ações aconteciam por meio de busca ativa ou denúncia.

Vice-prefeita

Em entrevista à TV Alterosa na manhã de ontem, a vice-prefeita, Janete Aparecida (PSC), citou algumas das irregularidades encontradas  na unidade. Segundo ela, vários medicamentos vencidos e remédios que não poderiam estar no espaço foram encontrados. Além disso, o número do registro de médicos não condiz com os dados prescritos. 

Outros problemas, como falta de higiene e limpeza, ausência de funcionários, presença de baldes defecados e com urina, também foram citados por ela. Ainda conforme a vice-prefeita, um prazo de sete dias, iniciado ontem, foi instaurado para que soluções sejam apresentadas pelos responsáveis. Uma comissão julgadora avaliará o caso.

Investigações

A reportagem também entrou em contato com a Polícia Civil. De acordo com a assessoria de comunicação, um inquérito policial foi instaurado para investigar os possíveis maus-tratos aos idosos. 

— Sobre o caso, a PC  informa que está ciente da interdição realizada pela Vigilância Sanitária e que esteve no local acompanhando os trabalhos e até o momento não dispõe de detalhes que possam ser antecipados. O caso segue sob investigação — disse.

O Ministério Público emitiu uma nota à imprensa informando a notificação da Prefeitura de Divinópolis sobre “a existência de graves violações aos direitos dos idosos acolhidos na Instituição de Longa Permanência para Idosos "Obras Assistenciais São Vicente de Paulo" (Vila Vicentina)”.

— Os fatos narrados configuram, em tese, ilícitos administrativos e civis, além de possíveis crimes de maus-tratos, tortura e cárcere privado. (...) Frente aos ilícitos noticiados, foi instaurado pela Promotoria de Justiça de Defesa das Pessoas Idosas procedimento preparatório, bem como requisitar a instauração de inquérito policial para a investigação da prática dos possíveis delitos — afirmou em nota.

Ainda segundo o MP, a Prefeitura também instaurou um processo administrativo próprio para apurar as irregularidades.

— Assim, o MP aguarda a conclusão das investigações e a definição das responsabilidades, a fim de que sejam adotadas as providências cabíveis, inclusive judiciais, por meio de ação civil pública e/ou deflagração da ação penal — concluiu.

Ataques

A ausência de vagas em instituições de longa permanência, como a Vila Vicentina, provocou, segundo a Prefeitura, ataques à secretária de Assistência Social, Juliana Coelho, e a outros técnicos do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).

— Não cabe a qualquer cidadão transferir a responsabilidade que lhes cabe, exigindo tratamento pessoal e diferenciado para atender sua vontade. Diante das ameaças foi lavrado um boletim de ocorrência e o caso agora se encontra sob investigação policial — explicou em nota.

O acolhimento de idosos, de acordo com a pasta, é feito através de um protocolo de atendimento disposto em uma resolução prevista no Conselho do Idosos de Divinópolis. 

— A medida busca garantir ao idoso todos os direitos dispostos no Estatuto do Idoso, entre eles a convivência familiar e comunitária, preservação de seu patrimônio, além de tratar a institucionalização como medida excepcional — concluiu.

Repercussão

A divulgação das denúncias gerou enorme repercussão nas redes sociais. A internauta Andréa Leão pediu que a vistoria seja realizada em outras instituições semelhantes.

— A Vigilância Sanitária deveria fazer uma fiscalização em todos os asilos. Não é só na Vila que está assim, não. Eu poderia citar nomes de uns três asilos que dão até revolta de tanta sujeira e porcaria — disse.

Driedas Cristina parabenizou o trabalho da Vigilância.

— A Vigilância só faz o trabalho dela, assim como em todos os lugares! A lei tem que ser cumprida e rigorosa principalmente quando se trata de idosos! Eles merecem respeito e dignidade! A lei é para todos! Ótimo trabalho! — afirma.

Vila Vicentina

A reportagem tentou entrar em contato com os responsáveis pela Vila Vicentina para ouvir o posicionamento acerca das denúncias. Até o fechamento desta página, por volta das 20h30 de ontem, não obteve resposta.

Em nota divulgada à noite, a direção da Vila disse que “promoveu a reestruturação interna e substituiu a coordenação e responsabilidade técnica da entidade”. A instituição também informou que está conversando com a Prefeitura para regularizar as falhas evidenciadas pela Vigilância. Uma proposta de desinterdição também foi enviada ao Executivo. 

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