Gritos no Senado?

Para quem se sente incomodado com a gritaria gratuita e evasiva de candidatos em família, pois que deveria mesmo, existem precedentes - diversos - de berros levados ao extremo nos parlamentos do país, inclusive com ocorrência de resultado morte.


Um dos episódios mais famosos e de grande repercussão aconteceu envolvendo um senador chamado Arnon de Mello e seu “ex adversus” político, igualmente senador, Silvestre Péricles.


Os envolvidos se debatiam por espaço e prestígio lá nas plagas de Alagoas, e as coisas da gritaria local não davam apenas em espaços para dancinhas ou coisas parecidas. Nem o tal “eu-te-pego-lá-fora” resolvia. Elas degringolavam mesmo era do berro da boca para o berro das armas.


O faroeste aconteceu mesmo, e foi dentro do salão de votação Senado, em plena posse dos eleitos em 4 de dezembro de 1963, onde os inimigos se encontraram trazendo um histórico de ódio desde a década de 50 pela disputa do governo de Alagoas.


Parecia mesmo uma crônica de um tiroteio anunciado, pois a imprensa da época dava notícias de que a família do senador Arnon não só viria armada para a cerimônia, como também já havia exercitado manejo de armas e tiros alguns dias antes.


Eis que o imbróglio descambou conforme havia sido previsto e ocorreu assim: O senador Arnon subiu à tribuna para seu discurso e, de lá, vociferou contra o senador Silvestre, alegando que ele o teria ameaçado contra sua vida.


Provocado desta forma, o senador Péricles devolveu em gritaria: “CANALHA! CRÁPULA! CAFAJESTE!” - Naquela época não se usava de costume os tais “vagabundo”, “bandido”, “sem vergonha” e “pilantra”. Tudo era mais elegante (...).


Ofendido triplamente o senador Arnon, de previsto, sacou da arma e efetuou igualmente 3 disparos em plena sessão. Senador Silvestre, que não era bobo nem nada, desviou-se a tempo dos disparos e, antes de fazer uso da sua vez nos disparos, foi oportunamente contido por colegas.


Lamentavelmente os disparos acabaram por atingir outro senador - José Kairala - inocente de tudo que faleceu alvejado no abdômen. Erro de execução, conforme artigo 73 do Código Penal.


As consequências dessa troca de gritarias foram os dois desafetos presos em flagrante, sendo que o senador Silvestre foi solto logo depois, ao passo que Arnon permaneceu preso durante 7 meses, até ser julgado e absolvido (!) pelo STF em julho de 1964 - 3 meses depois do golpe militar.


Décadas depois, o filho de Arnon de Mello foi eleito presidente do Brasil, depois de grande gritaria da imprensa que insistia em chamá-lo de “caçador de marajás”, mas depois ficou lembrado como caçador de poupanças. De caçador acabou cassado.


Moral alternativa da história: Enquanto alguns mergulham na multidão para afogar o grito do seu silêncio, outros saem dela para afogar a paciência alheia com berros e algazarras.




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