Filhos do mesmo pai

LEILA RODRIGUES 

Filhos do mesmo pai

Ele sempre pedia água, mas gostava mesmo era de abrir o armário e escolher o velho copo de requeijão. Dizia que o copo chique era para as visitas importantes. E depois de beber ainda trazia um copo d’água para mim porque reparara que eu não havia tomado água.

É que, para a minha surpresa, pessoas realmente boas reparam. Reparam que você não bebeu água, reparam que a sua borboleta floriu e reparam que alguém está construindo naquele lote vago quase em frente. 

Paradoxalmente, pessoas boas também reparam que você está abatido, cabisbaixo ou falando demais. Mas, antes que o lado perverso dessas pessoas nos julgue, sua generosidade já agiu nos estendendo a não ou nos trazendo um bom motivo para sorrir de novo. Eles são assim, espalhavam leveza por onde passam.  

É que pessoas  realmente boas reparam e perguntam. Perguntam pela sua mãe, perguntam pelo seu cachorro e perguntam pelo seu sobrinho que prestou vestibular. E na simplicidade das perguntas você percebe que a pessoa sempre esteve presente. Mesmo distante, mesmo com a vida cheia de problemas. E ainda que essas pessoas tenham reparado que você envelheceu, que engordou ou coisa parecida, elas não têm espaço para o julgamento nem tampouco para a comparação. 

É que pessoas boas sabem o tamanho que possuem e por isso mesmo não precisam diminuir ninguém para se sentirem grandes. Elas sabem rir de si mesmas, sabem rir das pequenas coisas e sabem arrancar uma risada nossa nas horas mais improváveis. Elas transformam um arroz queimado numa piada eterna. Elas sabem ser naturalmente desastradas a ponto de alegrar uma noite sem graça. Elas dançam sem se importar se sabem dançar, cantam sem julgar a própria voz e transitam entre nós sem exibir suas inteligências e sem se sentir diminuídas.

É que pessoas realmente boas não falam   tudo que pensam e não ostentam suas vitórias. Elas sabem a preciosidade do silêncio e o perigo da fama. 

O que mais me admira nessas pessoas boas de verdade é que elas, na mais genuína simplicidade, guardam uma sabedoria inesgotável. São tão grandes que sabem ser pequenas, sabem ser ouvidos, braços, choro e sorriso. 

Eu desconfio que essas pessoas, realmente boas, que transitam entre nós sem nenhum selo de qualidade, que vivem suas vidas sem nenhuma condecoração pela bondade que emanam, sejam os verdadeiros enviados de Deus, disfarçados de gente comum, semeando o amor sem que ninguém perceba.

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