Eu quero aprender a contar poemas!

CLÁUDIO GUADALUPE

 

Eu quero aprender a contar poemas!

Poema é quando as palavras desenham o sentimento

Poesia é quando sentimentos desenham as palavras (Victor, Formiga, Coletivo Poesia de Rua) 

 

“Lutar com as palavras / é a luta mais vã...”. Esses versos do poema O LUTADOR de Carlos Drummond de Andrade nos dão a dimensão exata do que seja escrever poemas. Um trabalho duro, quase artesanal com as palavras, mas também prazeroso! Nesta coluna, já escrevemos sobre a linguagem poética, para que serve a poesia, sua marginalização como gênero literário, num país onde pouco se lê. O texto de hoje é sobre a construção da poesia

 

Para começo de conversa vale pedir para que os futuros poetas leem Rainer Maria Rilke em “Cartas a um jovem poeta” (1903 / 1908), na Europa. Deixo aqui um fragmento de uma das cartas:

 

“Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns; são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida...Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza – relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade...” ( RILKE, pg. 23, Editora Globo, 1995)

 

Ivo Korytowski, lexicólogo brasileiro, no Manual do Poeta (2008), em linguagem simples dá muitas dicas para nós poetas. Sigo aqui suas sugestões:

 

  • O poeta deve conhecer os recursos da escrita poética (reconhecer versos, estrofes, métrica, rimas, ritmo, sonoridade, imagens);
  • Deve aprender a contar as sílabas poéticas (a métrica), com as sílabas em verso agudo, verso grave ou esdrúxulo, além de conhecer os versos de acordo com número de sílabas poéticas neles contidos, como por exemplo, o Pentassílabo ou redondilha menor, com cinco sílabas; 
  • Evite as rimas banais como em “amor” e “dor”; procure rimas ricas, raras, alternadas, cruzadas, opostas intercaladas, paralelas, misturadas encadeadas e até os versos sem rimas, os versos brancos. Exemplo:

 

POESIA (Carlos Drummond de Andrade)

 

Gastei uma hora pensando um verso

que a pena não queria escrever

No entanto ele está cá dentro

inquieto, vivo.

Ele está cá dentro

E não quer sair.

Mas a poesia deste momento

Inunda minha vida inteira.

 

  • Na poesia, o ritmo é fundamental, mais que versos bonitos, palavras preciosas tem que haver o ritmo dado pelas sílabas acentuadas ao longo dos versos e estrofes, que dão sentido estético ao serem ouvidos;
  • Cuidar da sonoridade na poesia, escolhendo as palavras, o ritmo, as rimas internas entre versos e os recursos sonoros da aliteração, coliteração e assonância;
  • Utilize a sintaxe rica e variada, com vários recursos de anáforas, repetições, encadeamento nos versos, etc;
  • Em poesia a IMAGEM É TUDO, daí a importância do jogo de imagens mentais, com as metáforas, as ideias opostos, as enumeradas, os metapoemas, prosopopeias, gradação, imitação de sons. Exemplo:

 

OS ESTATUTOS DO HOMEM

 

Artigo 1 – Fica decretado que agora vale

      a verdade

      que agora vale a vida.

      e que de mão dadas

      trabalharemos todos pela vida 

      verdadeira... (Fragmento do poema, Thiago de Mello) 

 

  • Evite a poesia prosaica, texto que se parece com a poesia, tem versos, estrofes, mas não tem ritmo, sonoridade das palavras, e vira uma prosa;
  • Há vários gêneros poéticos: Satírico, didático, lírico, épico e ligeiro. Importante o poeta exercitar o soneto, os haicais, as trovas, baladas, odes, elegias, poesias populares como o cordel, repente e outras formas. 

 

Mas como dizia minha mãe, se quer escrever bem, leia muito a boa literatura. Os estudiosos confirmam esta previsão. Assim, poeta iniciante, leia muito os clássicos da nossa poesia, se possível Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Thiago de Mello, Vinícius de Moraes, Moacyr Félix, Cecília Meireles, Olga Savary, Manuel Bandeira, Mário Quintana, João Cabral de Mello Neto, Castro Alves, Paulo Leminski, Cacaso e outros a serem pesquisados e lidos para a aprendizagem da poética. Vamos lá? Para encerrar, um belo poema de Ferreira Gullar, que mostra muitos daqueles recursos acima citados:

 

DOIS E DOIS: QUATRO 

(Ferreira Gullar, Dentro da Noite Veloz, 1962/1975)

 

Como dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena 

embora o pão seja caro

e a liberdade pequena

 

Como teus olhos são claros

e a tua pele, morena

 

como é azul o oceano

e a lagoa, serena

como um tempo de alegria

por detrás do terror me acena

 

e a noite carrega o dia

no seu colo de açucena

- Sei que a vida Vale a pena

E a liberdade pequena 



Cláudio Guadalupe é educador e poeta 

 

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