Divinópolis: Mais de cinco mil famílias vivem em situação de extrema pobreza

Dados mostram aumento de 43% nos últimos dois anos; especialistas explicam motivos

Da Redação

O número de famílias em situação de extrema pobreza vem aumentando assustadoramente em Divinópolis ano após ano. Dados do Relatório de Informações Sociais do Ministério da Cidadania mostram que, até novembro do ano passado, 17.819 famílias estavam inscritas no Cadastro Único da cidade, sendo que 3.302 possuem renda per capita de até R$ 89, e 2.474 renda per capita entre R$ 89,01 e R$ 178. 

Os dados apontam para mais de cinco mil famílias vivendo em situação de extrema pobreza na cidade.

Comparativo

Os números mostram uma situação crítica quando comparados com 2019. Informações da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas) mostravam que o município tinha 4.024 famílias em situação de extrema pobreza. As estatísticas revelam um aumento de 43% nos dois últimos anos. 

A exposição se torna alarmante quando comparada com números entre os anos de 2016 e 2017. Segundo a Prefeitura de Divinópolis (PMD), nessa época, 1.072 famílias viviam em situação de extrema pobreza, o que representa um aumento de 438% nos últimos cinco anos. Para se ter ideia do avanço e da gravidade da situação, em 2013, pouco mais de 100 famílias enfrentaram este cenário na cidade.

Ações

Informações da secretária municipal de Assistência Social, Juliana Coelho, confirmam que o Município dobrou a capacidade de cobertura dessas famílias em um ano, com inserção delas no Programa de Atenção Integral à Família (Paif) e, com isso, estão aptas a receber os benefícios sociais. Ainda segundo Juliana, um Centro de Referência da Assistência Social (Cras) foi mudado de local, para facilitar o acesso das famílias em situação de extrema pobreza ao cadastramento. 

— Nós tiramos o CadÚnico do CAC para melhorar o acesso, para que essas famílias façam o cadastramento e possam receber os benefícios como o Auxílio Brasil, as tarifas sociais da energia elétrica, da água, e os benefícios emergenciais que agora estão sendo regulamentados tanto pelo Governo Federal quanto pelo Governo Estadual — esclarece. 

Conforme o Relatório de Informações Sociais, 6.281 famílias vivem  com renda per capita familiar entre R$ 178,01 e meio salário mínimo; e 5.132 com renda per capita acima de meio salário mínimo.

Motivos

O economista Leandro Maia elencou alguns motivos que explicam o assustador crescimento nos últimos anos.

— Isso é uma situação que está ocorrendo não só em Divinópolis, mas também no estado e no Brasil. O principal culpado é a pandemia que gerou grandes impactos na economia. Foi necessário bloquear o sistema produtivo, fechando o comércio e aumentando o nível de desemprego. A falta do trabalho já estava sendo observada desde 2015, mas a disseminação do vírus agravou essa situação — afirmou.

O especialista também sugeriu algumas medidas que podem amenizar a grave situação.

— Está tudo ligado. Nós temos que voltar a produção para retornar a economia e, consequentemente, os altos investimentos no setor produtivo. Isso só vai acontecer quando as incertezas empresariais acabarem. Para isso, é importante que o ambiente econômico, como juros, questão fiscal, inflação, endividamento e outros, melhorem — explicou.

Programa

Como evidenciado pelo economista, a extrema pobreza é presente em território nacional. O dado mais recente do IBGE, que utiliza critérios do Banco Mundial, aponta para 13,5 milhões nessa situação no Brasil. Somadas aos que estão na linha da pobreza, essas pessoas chegam a 25% da população do país.

As características e a distribuição da população em situação de extrema pobreza chamam a atenção. De acordo com as informações do IBGE, os pretos e pardos correspondem a 72,7% dos que estão nessa situação. A extrema pobreza aumentou de 5,8% da população em 2012 para 6,5% em 2018.

A principal medida do Governo Federal para conter o avanço da extrema pobreza no país está no Auxílio Brasil. O programa, que substituiu o Bolsa Família, deve injetar pelo menos R$ 84 bilhões para famílias nesta situação em 2022.

Questão social

O sociólogo José Heleno Ferreira comentou a situação. De acordo com o professor, os dados apresentados não permitem afirmar a realidade da pobreza em Divinópolis.

— O número de famílias na extrema pobreza cresceu assustadoramente nos últimos anos. (...) Em Divinópolis, no entanto, há uma ausência de dados que nos permitam afirmar com segurança qual é a realidade. Contudo, basta andarmos pelas ruas que percebemos o crescimento do número de pessoas vivendo sem teto — argumentou.

Ele também elencou os motivos que, na sua opinião, favorecem a extrema pobreza. A omissão das autoridades e a ausência de políticas públicas são os principais culpados, em sua opinião.

— É consequência do desemprego e da inflação que corrói os salários daqueles e daquelas que estão trabalhando. E, ainda, é consequência da ausência do Estado, uma vez que os cortes nos investimentos em políticas públicas têm sido cada vez maiores desde que foi aprovada  a Emenda Constitucional que limita os gastos públicos — enfatizou.

Debate

Um debate para discutir a situação da extrema pobreza na região Centro-Oeste está previsto. Conforme o sociólogo, o simpósio, que irá trabalhar com a realidade da população de rua, será organizado pela coordenação de extensão das unidades de Divinópolis, Cláudio e Abaeté da Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg). 

O Coletivo Rango, que atua em diversas vertentes para combater a fome em Divinópolis, também faz parte da organização do simpósio. O evento está marcado para os dias 22, 23 e 24 de março.

 

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