Direitos? Quais?

Direitos? Quais? 

Ser mulher é: sentir medo 24 horas por dia, sete dias na semana e não ter um minuto de paz, do nascimento à morte. Não há um só instante em que uma mulher não sente medo, seja de andar na rua sozinha, de vestir uma roupa curta, de ingerir bebida alcoólica, de usar um batom vermelho. É se ver refém da angústia por toda vida. Julgamentos, dedos apontados a todo tempo. Frases como “ah, mas também com aquela roupa, tava querendo o que?” são ouvidos desde a infância até a terceira idade. Sim! Nenhuma mulher escapa do assédio. Não importa a cor, a idade, a raça, a orientação sexual ou a religião. E exemplos para ilustrar todo este contexto não faltam. Nesta semana, o caso de uma menina de 11 anos que teve um aborto negado – a gravidez foi consequência de um estupro – tomou conta das redes sociais, da imprenssa e sem dúvidas, enojou qualquer pessoa que tenha o mínimo de entendimento de direitos humanos, e de ser humano. 

No início de sua vida, de sua puberdade, marcada de forma tão trágica, tão cruel. Definitivamente, não dá para imaginar o tamanho dessa violência, dessa violação, e da condenação que essa menina recebeu ali, no ato do estupro. Naquele instante, em que um monstro a atacava, ele a condenou da pior forma possível. E, se não bastasse ter sido estuprada, essa criança engravidou e foi condenada, mais uma vez, porém agora não pelo monstro, mas pela Justiça brasileira, a ter que lidar com mais traumas. Ela engravidou com 10 anos, completou 11 já tendo que sentir na pele, que por aqui, mulheres não têm muitos direitos, e os poucos que têm ficam apenas no papel. Apesar de a legislação brasileira não estabelecer prazo gestacional para a realização do aborto, e de o procedimento ser permitido legalmente quando a gestação traz risco à vida da mãe ou quando a gravidez é decorrente de um estupro, essa menina teve seu direito negado. 

É extremamente difícil escrever sobre este assunto sem se colocar no lugar desta menina, que foi condenada de forma tão brutal por um monstro, e pela Justiça Brasileira a viver este pesadelo, com requintes de crueldade, quando ela foi enviada para um abrigo, para impedir o aborto. A pergunta “suportaria ficar mais um pouquinho”, chega a dar ânsia de vômito. Atitude que ultrapassa qualquer limite de respeito, e de sobrevivência. Retirada de si, retirada de sua mãe, tendo seu direito negado. Esse caso escancarou, mais uma vez, que a sociedade brasileira falhou e continua falhando dia após dia, e que mulheres, são condenadas e jogadas à própria sorte dia após dia. A história da princesa, com final feliz, infelizmente fica só no papel, na TV, no  cinema e assim como o direito delas à liberdade, à vida, a serem donas de si mesmas. E, o que mais entristece é saber que ela é apenas uma entre milhares de outras meninas que começam a vida dessa forma, e que são retiradas de si mesmas da forma mais brutal e violenta possível.

 

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