Delegado afirma que ainda não há sinais de homicídio na morte de segurança

Polícia Civil trabalha com a tese primária de lesão corporal seguida de morte; caso gerou comoção na cidade; suspeito nega crime

Bruno Bueno

Divinópolis parou neste fim de semana. A morte do segurança Edson Carlos Ribeiro, 42, causou enorme comoção entre os populares que clamam por justiça. O segurança morreu após ser agredido em uma festa no parque de exposições na noite do último sábado, 25. Pedro Lacerda, 32, principal suspeito de ter cometido o crime, está detido no Presídio Floramar.

Em entrevista coletiva, na manhã de ontem, a Polícia Civil (PC) ‒ por meio dos delegados Cleovaldo Marcos Pereira (delegado regional em Divinópolis), Flávio Tadeu Castro (chefe do 7º Departamento da PC) e Renato Alves da Fonseca (delegado plantonista que atendeu a ocorrência e determinou a prisão) ‒ deu mais detalhes sobre a investigação.

Renato Alves revelou que, até o momento, a investigação trabalha com  a tese primária de lesão corporal seguida de morte. Ainda segundo o delegado, não existem, até o momento, indícios de que Pedro Lacerda tentou matar o segurança.

— Havia indícios de crime de lesão corporal seguido de morte. O crime prevê pena de 4 a 12 anos de prisão. Nossa avaliação inicial é que o homem não quis causar a morte da vítima. Não temos elementos que comprovem isso. Não há uma arma ou indícios de espancamento. Temos mais dez dias para prosseguir a investigação. Iremos ouvir toda a equipe de seguranças e quem testemunhou. Queremos saber se a versão inicial dada pelo suspeito confirma nossa tese inicial ou muda a figura da situação — disse.

Sem injustiça

O chefe do 7º Departamento da PC, Flávio Tadeu Castro, garantiu que a investigação não busca encontrar um resultado específico. Ele também disse que não quer praticar qualquer tipo de injustiça com a vítima ou com o possível autor.

— A Polícia Civil não está buscando um resultado específico. Nós estamos em busca da verdade e, assim que ela for descoberta, nós iremos divulgar. As pessoas serão responsabilizadas. A PC não vai praticar injustiça com a vítima, mas também não vai ser injusta com o autor. (...) Qualquer comentário fora do inquérito policial é mera especulação —  ressaltou.

 O delegado que confirmou a prisão deu detalhes do início da investigação e das informações obtidas pela PC no momento do ocorrido.

— Durante o plantão na delegacia, chegou a ocorrência que, durante evento particular no parque de exposições de Divinópolis, por volta de 23h40, teria ocorrido um atrito e depois a morte de uma vítima. O segurança, que estava trabalhando no camarote, teria tentado impedir a entrada do suspeito no local porque ele não tinha a pulseira obrigatória. Testemunhas informaram ter presenciado o atrito e que o autor teria socado a vítima — salientou.

Negou

O delegado disse ainda não ser possível confirmar se o suspeito usou o soco-inglês para potencializar a agressão. Pedro Lacerda não só nega ter utilizado a arma branca, mas também, por meio de seu advogado, desmente ter agredido o segurança.

— Ainda está incerto se teve o uso do instrumento. Os seguranças do local não encontraram. Não se sabe se um possível segundo autor escondeu ou não o soco-inglês. (...) O suspeito prestou depoimento confirmando que estava no evento, mas negou, por meio do advogado, que tenha praticado qualquer tipo de agressão. Ele também negou a utilização do instrumento — explicou.

Renato Alves disse ainda que a suposta frase “Fiz porque quis”, que teria sido dita por Pedro Lacerda, segundo testemunha que estava no local, também não foi confirmada.

— A pessoa que viu ele dizendo essa frase ainda não foi encontrada. Seu depoimento será peça fundamental para a investigação. Também estamos aguardando o laudo da necrópsia, que definirá a causa da morte da vítima.  Enquanto isso, o autor está preso, sem possibilidade de fiança — reiterou.

Por fim, o delegado disse que, por enquanto, nenhum relato de racismo por parte do suspeito foi informado pelas testemunhas.

— Nós enviamos o relatório inicial para o Ministério Público (MP), que avalia o nosso trabalho. Eles recomendaram a manutenção da prisão preventiva para continuar a investigação. Quando ela for concluída, tudo será encaminhado para a Justiça decidir o destino do acusado. Vale ressaltar que, dentre as três testemunhas ouvidas, não foi ouvido nenhum relato de racismo na agressão — informou.

Comoção

A morte de Edson gerou enorme comoção na cidade. Centenas de divinopolitanos utilizaram as redes sociais para transmitir mensagens de carinho e luto para a família do segurança. Uma vaquinha on-line foi criada a fim de adquirir fundos para a família enlutada. Até o momento, mais de R$ 12 mil foram arrecadados.

Movimentos sociais realizaram diversas manifestações clamando por justiça. Um protesto ocorrido na tarde de domingo foi marcado por gritos de “vidas negras importam”. Eles compareceram à Delegacia de Polícia Civil e em outros pontos da cidade.

Muitos populares questionaram o fato de o agressor ter supostamente entrado com um soco-inglês na festa. O Agora entrou em contato com a organização do evento Revoada, que informou que, durante a revista e no local dos fatos, nenhum objeto foi encontrado. A organização disse ainda que está prestando apoio à família.

Repercussão

A morte do segurança também repercutiu nacionalmente. O influenciador Hugo Gloss, que tem quase 19 milhões de seguidores, disse que o caso era revoltante. Os sites Metrópoles, Yahoo e Correio Braziliense, além dos jornais O Tempo, O Globo e O Estado de Minas foram outros veículos que noticiaram o fato.

Nas publicações, várias pessoas comentaram a hashtag #JustiçaPorEdson, que se tornou marca registrada das pessoas que pedem justiça e a manutenção da prisão do principal suspeito.

Outro lado

Uma página de apoio ao principal suspeito de ter cometido o crime, Pedro Lacerda, também foi criada. A conta pede calma no desdobramento dos fatos e diz que o homem não é racista. A página chegou a publicar que ele não teria agredido o segurança por sua cor de pele já que ele tinha “amigos morenos”, mas apagou pouco tempo depois.

— Acusá-lo de racismo é se aproveitar de um caso desconectado como exemplo para levantar uma causa importante. O racismo existe e deve ser combatido, mas este não foi um caso para termos como exemplo. (...) Que o Pedro pague exatamente 100% pelo que ele fez, nem 1% a menos nem a mais, e aprenda com o seu erro. O amor vencerá o ódio! — diz a publicação.

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