Debaixo da lama

Debaixo da lama 

5 de novembro de 2015. A vida transcorria o seu curso normal para os moradores de três povoados de Mariana, quando a lama do reservatório da barragem vazou e, em marcha assassina, matou 19 pessoas, destruiu três comunidades por completo, eliminou bichos e vegetação e envenenou o rio Doce até sua foz, no Oceano Atlântico, na costa capixaba. A lama invadiu a vida de milhares de pessoas em 38 municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo, e levou junto consigo sonhos, sorrisos, planos. Além de destruir completamente bens materiais, os rejeitos condenaram essas milhares de pessoas a viveram pela eternidade com esse pesadelo. Pouco mais de seis anos se passaram, o rompimento da barragem da mineradora Samarco está mais uma vez em pauta nos tribunais britânicos. Desacreditados da Justiça brasileira, pouco mais de 200 mil atingidos, três comunidades indígenas, aproximadamente 600 empresas e 25 municípios, além da Arquidiocese de Mariana, buscam uma indenização da BHP Billiton, mineradora anglo-australiana com sede em Londres que é, ao lado da Vale, acionista da Samarco.

A ação foi movida em 2018, e nela os atingidos sustentam que o sistema jurídico brasileiro não tem sido capaz de assegurar a devida reparação. Apesar de a alegação ter sido refutada pela BHP Billiton, quem é brasileiro sabe muito bem que essa é a verdade nua e crua. Caso não fosse assim, as vítimas da tragédia não teriam que buscar apoio lá fora. Se, por aqui, o povo brasileiro pudesse contar com um sistema judiciário célere e capaz de fazer com que a “justiça seja feita”, sem sombra de dúvidas os atingidos não precisariam sequer pensar em buscar reparação fora do país. Vidas, sonhos, planos, sorrisos, futuros e a dignidade enterrados debaixo da lama. Já são exatos 2.344 dias da tragédia. Segundo os atingidos, a falta de definição sobre os valores das indenizações a serem recebidos por uma série de danos individuais, sociais, ambientais e econômicos pode ser identificada no acordo que criou a Fundação Renova, custeada pelas duas mineradoras acionistas da Samarco – Vale e BHP – e que ficaria encarregada de todo o processo de reparação.

Na época, o acordo foi firmado entre o governo federal, os governos de Minas Gerais e Espírito Santo, e as mineradoras, sob a justificativa de que a Fundação daria mais agilidade na reparação do que um processo judicial comum na concessão dos pagamentos. Tudo isso resume apenas o que todos estão mais do que acostumados aqui no Brasil: amadorismo. Segundo as vítimas, não tinha como dar certo – e não deu – porque com a criação da fundação a lógica era: os atingidos negociarem com seus algozes. Em poucas palavras, o Brasil sendo Brasil. A ineficiência pode ser mensurada pelo fato de que nenhum dos três povoados devastados – Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira – foram reconstruídos. Hoje, no 2.344º dia da tragédia, a única ponta de esperança que os atingidos têm hoje é de terem algum tipo de reparação da justiça britânica, porque, por aqui, a “coisa” deve continuar justamente como e onde está. Pois, como todos já estão cansados de saber, o Brasil é o país da impunidade. Aqui, a lama e muitas outras coisas matam, e fica por isso mesmo.

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