Comissão de Ética ainda não foi notificada sobre polêmica na Câmara, diz presidente

Discursos acalorados de Espino e Lohanna provocaram críticas de outros vereadores; presidência da Casa também se pronuncia

Bruno Bueno

As reuniões ordinárias da Câmara de Divinópolis (CMD) foram retomadas semana passada, após o recesso de fim de ano. Algumas situações, no entanto, parecem não ter ficado no ano que se passou, marcado por discussões, ataques e troca de farpas entre os vereadores. A segunda reunião do ano, realizada na última quinta, provou que os conflitos e promoções pessoais estão longe de acabar.

O encontro foi marcado pelo discurso acalorado de Diego Espino (PSL) destinado a Lohanna França (CDN), o que causou represálias de colegas vereadores. Alguns, inclusive, definiram a situação como ataque pessoal. Ela respondeu às críticas durante seu pronunciamento e pediu que os parlamentares tomassem cuidado, porque, segundo ela, “os porcos podem transformar essa Casa num chiqueiro”. 

Um dos vereadores críticos à situação foi Edsom Sousa (CDN). Ele, que é o presidente da Comissão de Ética, disse que a situação já passou dos limites. No entanto, em resposta aos questionamentos do Agora na tarde de ontem, informou que a pasta, responsável por disciplinar esses atos, ainda não foi notificada.

 

Entenda

O clima tenso começou durante o pronunciamento de Diego Espino. O vereador criticou a atuação da vereadora e disse que a edil apresenta os problemas, mas não tem competência para trazer soluções.

— [Você] Está brigando com um cara [o prefeito Gleidson Azevedo, do PSC] que está tentando de tudo para melhorar a sua vida, do seu bairro, da sua cidade. A politicagem em Divinópolis é demais, é muito "politiqueiro". (...)  Diferente de uma vereadora que tem aqui, que gosta de mostrar os problemas, o difícil é trazer a solução, para isso tem que ter competência — afirmou. 

Posteriormente, Espino citou a família de Lohanna e criticou uma publicação feita pela vereadora. Na postagem, ela pede soluções para retomar as atividades do ginásio poliesportivo.

— O pai da vereadora é assessor de deputado, poderia arrumar a quadra do poliesportivo. Pede ao seu pai para falar com o Gustavo Mitre [deputado estadual pelo PHS] para ele mandar verba para cá. (...) Você não gosta de falar, não gosta de mídia? Agora você vai ter que escutar — provocou. 

Por fim, o parlamentar sugeriu que a atuação da vereadora está sendo feita com o intuito de se candidatar nas eleições deste ano. Para ele, “a intenção não é ajudar Divinópolis, é fazer carreira política”.

 

Resposta

Única vereadora presente em Plenário, Lohanna pediu à Mesa Diretora direito de resposta sobre a fala do vereador. Eduardo Azevedo (PSC), que protagonizou atritos com a edil no ano passado, tomou a palavra e disse que ela não poderia responder ao colega já que não teve seu nome citado. 

Print Júnior citou o Regimento Interno, negou o direito de resposta e disse que a vereadora poderia se pronunciar durante sua fala. Quando chamada à tribuna, a parlamentar conversou sobre outros assuntos, mas não fugiu da polêmica. Segundo ela, os ataques  recebidos são feitos por pessoas medíocres e que, com “resultados inexpressivos, partem para o ataque”.

— Quando um porco entra num palácio, ele transforma todo o palácio inteiro num chiqueiro, mas não vira rei. Se vocês não tomarem cuidado, os porcos transformarão essa Casa num chiqueiro — respondeu. 

 

Críticas

Ainda em plenário, Rodyson do Zé Milton (PV), que falou logo após o vereador do PSL, precisou interromper seu pronunciamento devido à discussão entre Diego e Lohanna que se estendeu nas cadeiras da Câmara. Os dois vereadores sentam lado a lado.

— A gente vê pedido de união com discurso de ódio — disse Rodyson.

Companheiro de partido, Zé Braz (PV) também criticou a atitude.

— São ataques desproporcionais, que não vejo necessidade. Divinópolis se encontra em um momento crítico, de pandemia, com pessoas internadas, postos de saúde com profissionais afastados, empresas indo embora e muitos parlamentares partindo para agressões verbais desnecessárias — afirmou.

 

‘Vamos trabalhar’

O enfermeiro e vereador em primeiro mandato prosseguiu suas críticas. Para ele, sobram ataques e falta trabalho em prol da população.

— Vamos trabalhar, visitar as empresas que estão sofrendo, as unidades de saúde que estão pedindo socorro, as comunidades rurais com buracos e dificuldades de acesso. (...) Precisamos parar com essa ladainha de ataques pessoais, ataques ao prefeito, ataques a vereador, e trabalhar. Ganhamos R$ 9 mil para trabalhar — reforçou. 

Ao fim de seu discurso, Zé Braz, recém-chegado na Câmara, contou que esperava encontrar um Legislativo com um postura diferente, mais profissional. 

— É triste. Eu pensava numa Casa totalmente diferente. Isso não é um parlamento, parlamento tem discussão. (...) Agressões têm que ser contidas com bases legais. Aqui não tem 17 crianças, tem 17 adultos capacidade, que a sociedade escolheu para representar, não para fazer o que estamos fazendo aqui hoje. É um ambiente triste de se trabalhar, não se tem paz. Sinto-me envergonhado da população ter que assistir esse tipo de coisa. Peço desculpa em meu nome — finalizou.

 

Comissão

Durante seu pronunciamento, o líder do governo, Edsom Sousa, classificou a situação como infantil e agressiva.

— Isso aqui está passando do absurdo. (...) Já passou do limite. Temos que arrumar no mínimo uma linha para delimitar o espaço moral e de respeitabilidade. Chega! Chega dessas condutas infantis e agressivas — pontuou.

Em resposta aos questionamentos da reportagem, o vereador explicou que a Comissão de Ética não pode atuar no caso se não houver uma notificação sobre o ocorrido.

— Até às 13h45 do dia 07/02/2022 a Comissão de Ética da Câmara ainda não recebeu nenhuma notificação sobre a situação da última quinta. A Comissão só pode trabalhar mediante  contato de alguma parte procurada. O que eu fiz foi conceder uma advertência moral no Plenário. Para mim isso é uma falta de humanidade e nós temos que melhorar o nível — disse.

 

Presidente

A reportagem também procurou a assessoria do presidente da Casa, o vereador Eduardo Print Júnior (PSDB). 

Se pronunciou por meio do chefe de gabinete e explicou que a situação já foi conversada internamente e que o restante do processo cabe à Comissão de Ética.

— Essa troca de farpas na Casa, no que está ao alcance da presidência, já foi tratada internamente. Na Câmara temos uma Corregedoria de Ética que tem justamente a função de lidar com casos como este. Ela já foi acionada por uma das partes envolvidas, e todo o trâmite definido por regimento já está sendo feito — informou.

 

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