Coluna Rotativa 21/06/2022

 

Canto Eucarístico

 

Se deixar, eu publico para meus queridos leitores só poesia

E, se deixar, eu só escolho quase que só poema de Adélia Prado

E, se deixar mesmo, fico de manhã até à tarde, das 8h às 18h, escolhendo qual será a escolha do dia.

Eis que  invoco os céus e abro o mais recente livro de Adélia, da coleção ‘O coração disparado’. Invoco, com mais força e fé, e....

                                               Canto Eucarístico

Na fila da Comunhão, percebo à minha frente

                                                      Uma velha,

A mulher que há muitos anos crucificou minha vida,

Por causa de quem me marido se ajoelhou em

                                         Soluços diante de mim:

Juro pelo Magníficat que ela me tentou até eu cair,

Peço perdão, por alma de meu pai morto,

Pelo santíssimo Sacramento, foi só aquela vez,

                                                         Aquela vez só.

 

Coisas atrozes  aconteceram,

Até tia Cininha, que morava longe, 

Deu de aparecer na volta do dia.

Conversávamos a portas fechadas,

Ela com um ar no rosto que eu não vira, 

Zangando pouco com o menino, deixando ele reinar.

Houve punhos fechados, observações científicas

Sobre a rapidez com que  a brilhantina desaparecia do vidro,

Sobre como pode um homem, num só dia ,     

Trocar duas camisas limpas.

IRRITAÇÃO, IMPERTINÊNCIA ,

Uma juventude amaldiçoada tomando conta de todo.

Uma alegria, que chamei assim à falta de outro nome.

Invadindo nossa casa com a sofreguidão das coisas.



REZEI DE MODO TERRÌVEL.

O perdão tinha espasmos de cobra malferida

E não queria perdoar ,

Era proparoxítono, um perdão grifado ,

Que se avisava perdão .

‘olha, filha, aquela mulher que vai ali 

Não é digna de nosso cumprimento.

 

POR QUE, MÃE, NÃO É DI-G-NA?

‘Quando você crescer, entenderá.

Senhor, eu não sou digno

Que neste peito entreis,

Mas vós ó deus benigno,

As faltas supríveis.

Na fila da comunhão cantamos ambas.

A mulher velha e eu.



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