Ciclo vicioso

Ciclo vicioso 

Há quase 12 anos, em outubro de 2010, cerca de 26 famílias que moravam no bairro Alto São Vicente, em Divinópolis, foram retiradas de suas casas, devido ao risco de desabamento constatado pela Defesa Civil. Na época, a promessa da Prefeitura era entregar aos residentes um bairro com praça, creche para as crianças e moradias melhores. As casas ou apartamentos seriam reconstruídos em outro local e incluídos no Programa de Intervenção em Favelas (PPI Favelas) do Governo Federal. Hoje, pouco mais de 11 anos depois, a verdade é que muita gente que teve que deixar sua residência morreu sem ao menos saber quando teria a tão sonhada casa própria de volta. Atualmente, essas famílias vivem em residências alugadas pela Prefeitura e ainda não há sequer previsão de quando elas vão se mudar para os próprios imóveis, pois de 2010 para cá o que mais se viu foram promessas, anúncios “disso e daquilo”, a migração do PPI Favelas para o programa “Minha Casa Minha Vida”, hoje “Casa Verde e Amarela”, mas construção, que é bom, nada, absolutamente nada! 

A situação dos moradores do bairro Alto São Vicente remete a tudo aquilo que o Agora tem trazido diariamente em suas páginas. As palavras que o vento leva. As promessas que nunca são cumpridas. Os discursos que passam longe, mas muito longe, das ações. Assim como em Divinópolis, milhares de outros brasileiros, que foram retirados de áreas de riscos neste Brasil afora, esperam por suas casas próprias até hoje. Os motivos por tanta espera são os mais variados: falta de competência, falta de gestão, falta de projetos, projetos com vícios e, claro, a rotineira e já conhecida do povo brasileiro: corrupção. É de tirar a esperança de qualquer um quando se vê pessoas em vulnerabilidade financeira morando de aluguel social, sem ter a sua casa própria, pois quem foi eleito para defender os seus interesses está mais preocupado em encher os bolsos, do que de fato cumprir o que a sua função de “representante do povo” determina. 

Quem assistiu à cobertura da tragédia de Petrópolis se emocionou, se compadeceu, em algum momento, com a dor daquelas pessoas. Mais de 150 vidas perdidas em uma tragédia que poderia ter sido facilmente evitada. Aliás, qualquer um pode afirmar, de olhos fechados, que 90% das tragédias ambientais que aconteceram no Brasil poderiam ter sido facilmente evitadas, se aqui fosse um país sério, com representantes de verdade. Se aqui os governantes fossem comprometidos com o seu povo e trabalhassem em prol dele, e não em causa própria, sem sombra de dúvidas os brasileiros não precisariam enfrentar esses desastres, que infelizmente começam a se tornar rotina por aqui. Aliás, se tem uma coisa que o povo brasileiro se tornou expert foi em lidar com tragédias. Barragem de Mariana, barragem de Brumadinho, Petrópolis (1981/ 2011/ 2022), chuvas em Minas Gerais este ano e por aí vai. 

Até que o povo se torne consciente do seu poder, todos estão condenados a viver nestes ciclos viciosos, em que apenas um lado tem vantagem. Até que o povo comece a entender a importância do voto, da educação, e da política, as famílias do Alto São Vicente estão fadadas a esperar por anos e anos suas casas. E assim seguimos, neste ciclo vicioso, sem data para acabar.

 

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