Cem anos de revolução nas artes

Raimundo Bechelaine

Cem anos de revolução nas artes

Em meio às incertezas da pandemia, o primeiro mês do novo ano caminha para o fim. Eis que janeiro se vai. Porém, antes de findar, levou desta para melhor o astrólogo Olavo de Carvalho, guru dos bolsonaristas, o Rasputin de um império de malucos que assola e destrói o Brasil. Não chega a ser uma perda. 

O fato é que, na próxima terça-feira, já começa fevereiro, mês da maior festança nacional. "Em fevereiro tem carnaval", cantava Jorge Ben. Porém, desta vez, para dar mais tempo ao vírus da covid, para que ele possa decidir se vai ou se fica, ou quando vai, fevereiro adiou, o mais que pôde, o carnaval. Generosamente, até cedeu para março a terça-feira final e a quarta-feira de cinzas. 

Mas pode haver aí outra razão. Fevereiro gosta de artes, tem inteligência e bom gosto. É possível que tenha empurrado para a frente o carnaval para não ofuscar a comemoração de um centenário que não pode ser esquecido. 

Foi em 1922 que aconteceu, de 13 a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal de São Paulo, um programa cultural que repercutiu em todo o país. Chegou a escandalizar a "gente de bem" da época. Consta que o pintor Di Cavalcante, uma das geniais figuras do evento, o teria explicado como "uma semana de escândalos literários e artísticos para meter os estribos na barriga da burguesiazinha paulista". 

A revolucionária "Semana de Arte Moderna", seguindo as inspirações das vanguardas artísticas da Europa, propunha o rompimento com os  critérios estéticos então vigentes no campo das artes. Defendia a liberdade da criação em todas as suas manifestações.  Suas repercussões estenderam-se a todas as regiões, inclusive às Minas Gerais. 

Alceu Amoroso Lima, sob o pseudônimo de Tristão de Athayde, o mais reconhecido crítico literário da década de vinte, escreveu: "Com o modernismo, vimos a nítida iniciativa do Sul, no eixo Rio-São Paulo, e depois uma extensão para todo o país, com a intensificação altamente sadia dos movimentos literários regionais...". A respeito do nosso Estado, Alceu indicava: "a revivescência literária em Minas, nos últimos anos, com a apresentação de todo um núcleo de poetas e romancistas, críticos e pensadores, como nunca tivera até hoje em sua história cultural" (in: Introdução à Literatura Brasileira, Ed. Agir, 1964, pp. 185-186).

Também aqui, em Divinópolis, os traços e ressonâncias da "Semana de Arte Moderna" se poderão certamente encontrar. Estariam eles nos afrescos do Santuário de Santo Antônio? Na arquitetura do Colégio São Tomás de Aquino e da residência de Simão Salomé? Na pintura de Bax, Waldir Caetano e Heraldo Alvim, no desenho iluminado de Hevecus? Na poesia de Sebastião Milagre, Adélia, Oswaldo André e outros? Aí fica uma interrogação a verificar. [email protected]












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