Caso ‘Lula lá’: advogado da família revela detalhes sobre investigação

Inquérito, segundo a Polícia Civil, é tratado em “regime de prioridade” e deve ser concluído em breve

Bruno Bueno

A agressão de um policial militar reformado a uma criança de 7 anos no último dia 30, em Divinópolis, continua repercutindo dentro e fora da cidade. Nos últimos dias, diversas personalidades políticas falaram sobre o tema em âmbito regional, estadual e nacional.

O Agora conversou ontem com o advogado responsável pelo caso, Farlandes Guimarães. À reportagem, ele deu detalhes sobre o andamento da investigação e revelou um pedido especial da criança.

Relembre

Em entrevista ao Estado de Minas, na última sexta, a mãe da vítima revelou detalhes da agressão.

— Meu menino passou, o agressor passou a mão na cabeça dele e falou: ‘Você é Bolsonaro, tem cara de ser Bolsonaro’. Aí meu menino falou: ‘Eu sou Lula lá’. No que ele falou, ele pegou meu filho pelo pescoço, enforcando meu filho, deixando ele sem ar até ele desmaiar. Quando ele desmaiou, ele soltou meu filho. Machucou o cotovelo dele —  contou a mãe da vítima.

Os detalhes constam no Boletim de Ocorrência registrado pela família da criança. Até o momento, o acusado não foi preso.

Pedido

Farlandes revela que ficou sensibilizado pela situação e decidiu ajudar a família de forma voluntária.

 — A mãe disse que iria em um depoimento na delegacia e me pediu para acompanhá-la. Aceitei de imediato. Quando cheguei, a criança me abraçou e perguntou se eu ia levá-lo para conhecer o ex-presidente Lula — conta.

Um dos pontos mais cruciais da investigação, segundo o advogado, é a análise médica da criança que foi agredida.

— A criança foi levada para a psicóloga e a mãe foi ouvida pela Polícia Civil. O menino também passou pelo exame de corpo de delito. Nós fornecemos informações sobre o atendimento realizado na UPA para que a médica possa concluir seu laudo — pontua.

 

Apoio judicial

O caso também está sendo analisado por representantes da Câmara Federal, em Brasília, e Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), em Belo Horizonte.

— Entrei em contato com a Comissão de Direitos Humanos na Câmara Federal e Assembleia Legislativa. Em Belo Horizonte, já tinha um requerimento aprovado para o Ministério Público acompanhar o caso. Também reportei para Anistia Internacional e Comissão de Direitos Humanos da OAB — revela o advogado.

O acusado tem registro definitivo na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Farlandes revela que pretende tomar medidas sobre a atuação do homem na entidade.

— Se o inquérito corroborar os fatos que vieram à tona, vamos adotar algumas medidas, como uma representação no Conselho de Ética da OAB pedindo a suspensão do suposto agressor, tendo em vista que a conduta é incompatível. Ele não pode ter a inscrição, porque mancha e prejudica os colegas. Temos amparo no estatuto da OAB — pontua.

 

Polícia Civil

A reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da Polícia Civil. Em nota, o órgão disse que “o inquérito tramita em regime de prioridade”. 

Também informou que, até o momento, não há previsão para conclusão do inquérito, mas que ele deve ser finalizado “em breve”.

 

Câmara de Divinópolis

A vereadora Lohanna França (PV) falou nesta semana sobre o caso durante a reunião da Câmara.

— Este é o nível que a extrema-direita opera. (...) A criança às vezes nem sabe o que está falando, talvez ouviu da mãe. Isso é um absurdo, é crime. (...) Onde estão os defensores das crianças desta Câmara? Temos uma criança vítima de violência política por conta do ódio da extrema-direita. Eles estão mudos (...) — disse.

Fontes ligadas à vítima informaram à reportagem que a família compareceu até a sede do Ministério Público (MP) de Divinópolis na tarde de ontem. A informação tinha sido antecipada pela vereadora durante a reunião. Eles foram acolhidos e informados que o órgão precisa aguardar a conclusão do inquérito para tomar providências.

 

Câmara Federal

O deputado Rogério Correia (PT-MG) também falou nesta semana sobre o caso no Plenário da Câmara Federal. Ele não deixou de falar sobre Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores.

— Quando eu vejo pessoas nas portas dos quartéis pedindo ditadura militar, isso é completamente inaceitável e tem que se perguntar o que será feito. Este policial será ou não punido da forma e no rigor necessário? (...) Isso é fruto do que foi exposto na campanha pelo bolsonarismo. Este sujeito que foi derrotado fazendo sinal de arma, dizendo que mata. Isso é imperdoável e terá que ser punido — ressalta.

O parlamentar articula um encontro entre a criança com o ex-presidente Lula.

— Essa criança disse que o maior sonho dela é conhecer o Luiz Inácio Lula da Silva depois do ocorrido. Eu vou encaminhar ao presidente para que ele possa acolher esta criança. Essa denúncia tem que ser vigorosa. Uma cidade como Divinópolis não merece a barbaridade a que o Brasil assistiu — acrescenta.

ALMG

O presidente do PT em Minas Gerais, deputado Cristiano Silveira, solicitou ontem que o Ministério Público apure o caso. 

— Pedimos que o Centro de Apoio adote as medidas que considerar cabíveis, juntamente à Promotoria dos Direitos das Crianças e dos Adolescentes do município onde ocorreram os eventos descritos. Em virtude da relevância e urgência dos fatos, solicitamos que a resposta seja apresentada o mais breve possível — disse.

PT 

O diretório municipal do PT de Divinópolis também emitiu nota e demonstrou apoio à criança agredida.

— Diante das agressões sofridas, ainda que em tom de brincadeira, conforme fala do agressor, nada justifica o contato físico e a ação por parte de um policial reformado contra uma criança de apenas seis anos — disse.

A entidade também disse aguardar ações das autoridades competentes. A Polícia Civil informou na semana passada que instaurou inquérito para apurar o ocorrido. 

— Que as medidas legais sejam tomadas para que a investigação ocorra de maneira justa e que as autoridades atuem ativamente para a apuração do ocorrido — completa.

OAB 

A presidente da 48ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sede em Divinópolis, Ellen Lima, entrou em contato com a Polícia Civil e foi informada que o suspeito, a vítima e testemunhas serão ouvidas ao longo desta semana. Ellen garantiu que a OAB está acompanhando os fatos.

— O delegado nos garantiu que logo, logo teremos a conclusão e será enviado para a OAB para qualquer tomada de providência. Enquanto instituição fiscalizadora da conduta de seus inscritos, a OAB não se furtará a adoção de medidas necessárias que o caso requer. Primamos pelo devido processo legal, ampla defesa e contraditório, garantia constitucional a todos os cidadãos — afirma.

Ela também se solidarizou com a família da vítima e disse que o caso é um "lamentável incidente".

 

 

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