Carta a um aniversariante

Raimundo Bechelaine

Carta a um aniversariante

A página de hoje vai para alguém que chega à respeitável idade de 75 anos. Bem vividos? Às vezes, sim; outras, nem tanto. Ou melhor, vividos como foi possível em cada momento. Já na terceira idade, Simone de Beauvoir escreveu: "Eu não sou uma velha, os outros é que me veem como uma velha". Em parte, é verdade. De qualquer forma, três quartos de século não são pouca coisa. 

Quantas pulsações terá batido o cansado coração? Quantos milhões de vezes soou, dias e noites, na parede, o tic-tac do velho relógio? Quantos sóis, luas e chuvas terão corrido sobre os telhados? Quantas flores nasceram e murcharam, no jardim? Quantos sustos e alegrias, frustações e vitórias, quantos equívocos, quantas perdas e conquistas ocorreram através do longo caminho? Quantos risos e lágrimas? Olhando para trás, quantas esperanças se esfumaram aos ventos, quantos encontros e desencontros? Mas quantas descobertas e sensatez foram colhidas? O certo é que muita água turva ou cristalina correu debaixo da ponte frágil dessa existência; ponte que não ruiu, apesar de tudo.

Conviver é um dos prazeres da vida, encontrar e conhecer pessoas. Quanta gente compartilhou o passar de sete décadas e meia! Muitos trazendo alegrias, despertando sonhos e delírios; outros, semeando mágoa e decepções. Mas todos deixando marcas. Amoroso Lima deu a um dos seus livros o sugestivo  título de "Companheiros de Viagem". Alguns surgem e logo desaparecem. Outros permanecem, tornam-se companheiros na grande viagem existencial. Iluminam e enriquecem a paisagem humana. A essa altura, tantos deles já terão partido para a viagem sem volta. Tornaram-se saudades ou, pelo menos, lembranças.

Bem jovem ainda, Beauvoir descrevia, nas "Memórias de uma Moça Bem Comportada", o momento em que se deu conta da morte inexorável, reservada a todos os humanos. "Fiz outra descoberta. Uma tarde, em Paris, tive a sensação de que estava condenada à morte. Sozinha no apartamento, não refreava meu desespero; gritei e unhei o tapete vermelho. Quando me levantei, estupefata, perguntei a mim mesma: como fazem os outros? Como farei? Quando a data se aproxima, quando já se tem trinta anos, quarenta, e se imagina: pode ser amanhã, como se pode suportá-lo?!"

Porém, talvez pior que isso, seja a indiferença, a conformidade morna com o fim e o desejo dele. Ou a sensação atroz de ter sido tudo um logro, ver o mundo vazio, insosso e descolorido, entregar-se à espera impaciente do apagar das luzes. Sem poder sequer levar a sério as vozes apiedadas que auguram "muitos anos de vida!"  

Certo é que, aos 75, é chegada a hora da verdade. Pode não ser lindo, mas é a dádiva final.  Ilusões não cabem mais. 

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