Cadê o Carnaval?

Augusto Fidelis

Cadê o Carnaval?

Houve um tempo que, por esta época, tudo era permitido: bebedeira, comilança e afrouxamento das regras morais. Os desavisados se davam ao direito até de provocar a ira divina, sem se lembrar das consequências. Porém, nesta vida tudo passa, nada é para sempre. Na atualidade, toda audácia será castigada, porque a hora pertence às Cinzas. É claro que a Quaresma, que bate à porta, não pode ser a única época do ano em que se deve fazer a correção de conduta, mas é um bom período para se pensar nos inúmeros defeitos dos quais todo ser humano é vítima, a inveja principalmente.

Não há Carnaval sem cinzas, não há Cinza sem Quaresma, como não há Quaresma sem Páscoa. Uma coisa está intimamente ligada à outra. Mas o que é a Quaresma? - perguntaria algum incauto. A resposta mais simples pode ser nesta linha: trata-se dos 40 dias que antecedem a Semana Santa, período em que os cristãos deveriam se preparar condignamente para celebrar a Ressurreição de Cristo, fato que fundamenta toda a fé cristã. Uma preparação com jejum, abstinência, exercício de penitência ou ações de caridade é recomendada.

De acordo com o semanário litúrgico-catequético “O Domingo”, estes 40 dias são carregados de simbologia, pois recorda as seguintes efemérides bíblicas: a aliança de Deus com Noé, no dilúvio de 40 dias; a convocação de Moisés, aos 40 anos; a permanência de Moisés por 40 dias no Monte Sinai; os 40 meses de pregação de Jesus; sua permanência no deserto por 40 dias; e a volta ao Pai depois de 40 dias da Ressurreição.

Já ouvi pessoas intrigadas com o fato dessas festas não terem uma data fixa e mudarem de período a cada ano. A data do carnaval, e consequente início da Quaresma, depende de quando vai acontecer a Páscoa. Segundo a “Larousse Cultural”, a data de celebração da Páscoa cristã foi fixada em 325, durante o primeiro Concílio de Nicéia, para o primeiro domingo após a lua cheia do equinócio da primavera no hemisfério Norte. Vale lembrar que equinócio é quando o dia e a noite têm a mesma duração, o que ocorre, geralmente, em 21 de março e 21 de setembro. Um ditado popular diz que não há cinzas sem nova e nem Páscoa sem cheia.

Independente da confissão religiosa, esse período deve ser uma época de meditação e exame de consciência, no sentido de nos fazer melhores. Infelizmente, a prática desmente toda a teoria. Depois que vi na televisão uma escola de samba, não sei se do Rio ou São Paulo, levar para a avenida a representação do Cristo agonizante, como parte do seu enredo, conclui que a falta de reverência pelo Sagrado é a fonte de toda a violência. Se não há respeito pelo Sagrado, como respeitar o profano? No entanto, os perversos foram dispersados e vão perder-se, ainda que tardia.

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