Bichinho de estimação

Augusto Fidelis - Bichinho de estimação

O mundo está muito mudado. Até as árvores, tão fiéis à natureza, começam a trocar de hábito: as folhas velhas que deveriam ser dispensadas no outono só agora estão indo para o chão, assim mesmo por exigência da primavera. Quem quiser manter folha velha não ganha folha nova. Nesse ponto a natureza é exigente. No que se refere ao ser humano, este muda seus hábitos com muito mais rapidez e, às vezes, de maneira muito estranha. Até há pouco tempo, os animais domésticos eram os bichos de estimação, mas, por incrível que pareça, de uns tempos para cá, a realidade é outra.

Entre os jovens, de maneira muito mais nítida, o cachorrinho, o gatinho, o passarinho, dentre outros, estão em baixa. O que todos querem é ter um celular de última geração. Com o avanço da tecnologia, o som da chamada fica por conta da chatura de cada um. Tenho um amigo que o celular dele toca como o cacarejar de uma galinha d’Angola. O uso do celular se tornou um vício, que aprisiona o usuário e incomoda quem está por perto. Nem os cultos religiosos estão a salvo desse bombardeio. Há quem atenda o celular dentro da igreja, durante a missa.

Ontem, por exemplo, fui de ônibus para casa, sentado ao lado de um jovem. Logo o seu celular tocou. Sem querer, fui testemunha de uma briga tecnológica entre este e outro jovem, com certeza, por causa de uma namorada em comum. Aliás, não só eu, mas todas as pessoas que estavam próximas, já que o jovem falava muito alto. Esse rapaz deve ter herdado o hábito de algumas pessoas que frequentavam a Cervejaria Savassi, quando o celular surgiu na cidade. 

Na época, os poucos que possuíam o aparelho (conhecido como tijolão) o colocavam sobre a mesa à espera de alguma ligação. Quando isso acontecia, a cena era patética. O tempo passou e muita gente ainda não entendeu que, hoje, ter um celular já não é sinônimo de status. Os desavisados, porém, ainda não perceberam a onda. Mesmo quando se faz necessário, as pessoas não têm a coragem de desligar seus aparelhos, porque sentem necessidade de serem achados, seja onde for e nas horas mais inconvenientes.

O mais incrível de tudo isso é o fato de que, numa época de tantos meios de comunicação, o ser humano esteja cada vez mais distante dos seus semelhantes, não fisicamente, mas em compreensão e atitudes. Cresce o número de solitários, e deprimidos, que não conseguem se comunicar da maneira desejada, embora estejam rodeados de uma infinidade de meios para tal.

Com toda pureza d’alma, afirmo com convicção: quando vejo um jovem de olhos fixos no seu celular por um longo período, à espera da ligação que não acontece, é de cortar o coração. O mesmo posso dizer daquele ou daquela que recebe ligações em demasia, e já não sabe mais onde se encontra, se na sala de aula, na igreja, num teatro ou numa praça. A falta de educação vai além da conta. Tomara que eu esteja enganado, mas creio piamente que estamos vivendo a era dos neurastênicos.

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