Antigos cortejos fúnebres

Augusto Fidelis

Antigos cortejos fúnebres

Segundo ouvi dizer, quem remexe demais o passado é porque perdeu a perspectiva de futuro. Porém, posso garantir que não é esse o meu caso. No entanto, quando a gente deixa a memória livre, as reminiscências vêm e vão sem que haja controle. Aliás, é impossível apreender o pensamento: como os pássaros voam para onde querem.

Hoje, no entanto, sem querer, danei a me lembrar dos antigos cortejos fúnebres que saíam do povoado da Forquilha rumo à cidade de Carmo da Mata, naquela época em que não havia luz elétrica e nem televisão nas casas. Pouquíssimos tinham rádio. A simplicidade era a marca registrada de todos, mesmo daqueles que dispunham de melhor poder aquisitivo.

Quando a morte surpreendia alguma família, em geral, o choro se continha a determinados momentos, porque várias providências precisam ser tomadas. Constatado o passamento, o defunto era colocado na cama, coberto com um lençol branco. Alguém da família ou um amigo saía a cavalo para avisar a todos quantos possíveis sobre o ocorrido. Os vizinhos começavam se juntar para dar apoio.

No tempo frio, os velórios à noite eram animados à base de cachaça, café, chá de funcho, biscoito de polvilho, broa, carne cozida, mandioca e muitas piadas. À medida que as pessoas iam chegando, dirigiam-se até o quarto, descobriam o rosto do morto, lamentavam a sua partida, faziam os elogios de praxe, para depois cobri-lo novamente e, em seguida, se dirigirem ao local da festa, costumeiramente em volta de uma fogueira. 

Encomendar o caixão na oficina do Antenor ficava caro, porque se tratava de uma urna mais caprichada. Na Forquilha, por sorte, não faltavam pessoas que entendiam do ofício, então bastava comprar o pano roxo, os galões dourados, pregos e alças, porque as tábuas podiam ser conseguidas no próprio povoado. Terminado o ataúde, hora de dar banho no cadáver, trocar-lhe a roupa e ajeitá-lo para a sua última caminhada.

Chegada a hora do cortejo fúnebre, o caixão era colocado num estrado, que as pessoas chamavam de padiola, lençol branco amarrado por cima e pé na estrada, na seguinte ordem: à frente o ataúde, atrás os acompanhantes a pé, e por último os cavaleiros. No mais, muita piada e muito riso. Ao chegar à cidade, a coisa mudava de figura. Os cavaleiros, contritos, formavam fila na frente, com o chapéu sobre o peito; quem estava a pé formava fila e o féretro conduzido solenemente até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo.

Ao aproximar-se do templo, o sino grave anunciava a partida de mais um fiel, com três badaladas: uma badalada, pausa, mais duas badaladas. Depois da encomendação, outro cortejo até o cemitério. A partir daí os familiares tingiam de preto todas as roupas e guardavam luto por pelo menos um ano. Alguns pelo resto da vida.

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