Além do Expediente

WELBER TONHÁ

Além do Expediente

Hoje falaremos da saudade que um amigo deixou, do que nos ensinou, e até mesmo daquilo que nem falou. Em vez de escrever sobre ele, como muitos fizeram, e belamente o fizeram, peço licença aos meus leitores para publicar um texto que o amigo Cel. Faria me mandou para publicar no livro 109 Histórias Marcantes de 2020. 

O convite era para que ele contasse a história de alguém. Ele, com seu lado generoso, não quis contar de “uma” pessoa em especial, ele quis homenagear aos companheiros de farda e amigos que ajudaram em determinado momento, na pessoa do “Soldado”.

 

“Sou do tempo em que era difícil recrutar novos soldados para compor um batalhão. Em tom de brincadeira, nas conversas dentro do quartel, dizia-se que, se algum civil entrasse para pedir informação, ele poderia ser pego para “assentar” praça. 

Quando cheguei a Divinópolis, no fim dos anos 60, não havia muitos policiais, mas, aos poucos, e de forma invejável, todos se engajaram para construirmos o complexo esportivo no quartel da rua Mato Grosso. Dentro ou fora do expediente, nunca fizeram corpo mole, realizei meu sonho e cumprimos a missão, com louvor. 

Foi daqui que, pela qualidade profissional e em forma de agradecimento à tropa, recrutei quatro policiais para trabalhar comigo quando fui convidado para chefiar a segurança do então candidato a vice-presidente da República José Sarney. 

O soldado Hélio Antônio Alves, o cabo Sinval de Carvalho, os sargentos Denizart Vieira de Almeida, (o famoso Vieira do DTC) e João Soares Siqueira Sobrinho mostraram no Distrito Federal por que a PM de Minas é modelo para o país.

Esse acontecimento completou 36 anos em abril deste ano, e ocorreu no período em que o país se contorcia para passar de um  regime considerado autoritário para o democrático. Eram momentos difíceis, de polarização política, de agressões e tumultos nas ruas e muita artilharia verbal, como se vê agora. 

Cito esse fato para homenagear todos que trabalham de forma solidária, para promover a paz, garantir a saúde e a felicidade do Município, Estado e Nação. 

Sempre saímos mais fortalecidos das crises e, desta vez, certamente vai prevalecer a defesa da ética e dos valores morais que fundamentam as bases familiares. 

O respeito aos mais velhos, aos fragilizados, a certeza de que somos todos iguais e que estamos no mesmo barco, de forma clara nos levam a concluir que somos todos dependentes da gentileza de voluntários, que vão muito “além do expediente” para salvar vidas. 

E é com base na história real de militares como os citados acima que, além de torcer, sei que tudo vai ficar bem.  Hoje, podemos afirmar que o tempo, além de senhor da razão, é de todas as coisas a mais preciosa, e a liberdade a maior garantia de dias melhores” (Cel. Pedro Magalhães de Faria, pág. 25 - 109 Histórias Marcantes de Divinópolis)  

 

O Cel. Faria partiu no último dia 4, sábado à noite, sepultado em um domingo, para que os amigos pudessem se despedir, nos deixando na paz de um fim de semana. 

Fica a saudade daqueles que puderam, assim como eu, conviver um pouco e aprender muito com esse homem que fez história. 

 

Alguns trechos de frases e poemas sobre saudade

 

“E esse é o maior dos sofrimentos: 

não ter por quem sentir saudades, 

passar pela vida e não viver. 

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido”.

(Aguinaldo Silva)

 

“Poucos querem ter

seja pouco, ou pra valer

Resta saber

 É que a Saudade faz doer”

(Welber Tonhá)

 

“Sim, tenho saudades.

Sim, acuso-te porque fizeste

o não previsto nas leis da amizade e da natureza

nem nos deixaste sequer o direito de indagar

porque o fizeste, porque te foste.”

(Carlos Drummond de Andrade)

 

“É preciso a saudade para eu sentir

como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida…”

(Mário Quintana)

 

“De que são feitos os dias? 

- De pequenos desejos, 

vagarosas saudades, 

silenciosas lembranças.”

(Cecília Meireles)

 

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Welber Tonhá e Silva 

 

Imortal da Academia Divinopolitana de Letras, cadeira nº 09

Historiador, escritor, pesquisador, fotógrafo e fazedor cultural.

Instagram: @welbertonha

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