Agente e vereadores repudiam a fala do prefeito: “nos sentimos ofendidos”

Servidora foi a Plenário repudiar declaração de Gleidson em rede social

Matheus Augusto

Agente de Combate à Endemias (ACE) e concursada há 12 anos, Isabel Maria de Sousa marcou presença na Câmara para defender o pagamento do piso salarial à classe e aos Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Seu pronunciamento ocorre um dia após o prefeito Gleidson Azevedo (PSC) publicar, em suas redes sociais, um vídeo criticando a suposta obstrução de servidores ao Projeto de Lei 63/2022, que tem o objetivo de autorizar o Executivo a pagar as duas categorias. Na publicação, Gleidson usa a expressão “meia dúzia de laranja podre”. 

Em seu pronunciamento, Isabel criticou a fala do prefeito. Em sua avaliação, as classes não têm sido respeitadas pela atual gestão. 

— A gestão atual, durante a campanha para a Prefeitura, assumiu junto aos servidores o compromisso de valorizar os servidores, o que, no nosso caso, não ocorreu — lamentou.

O referido texto autoriza a abertura do crédito adicional suplementar de R$ 16,9 milhões, dos quais R$ 6,1 são destinados ao pagamento da categoria. De acordo com a atual Administração, como o piso foi aprovado em maio, o recurso não está previsto no orçamento deste ano. Por isso, a necessidade de inclusão do recurso adicional.

— Por que essa meia dúzia de “laranja podre'' está querendo prejudicar os outros agentes? — questionou o prefeito em vídeo publicado na segunda. 

A servidora definiu o não pagamento do piso como “ofensa”, bem como os termos utilizados para se referir aos membros da categoria pelas cobranças.

— Nos sentimos ofendidos com o descumprimento com o qual a categoria tem sido submetida, quando, ao lutarmos pelo que nos é de direito, somos chamados de baderneiros, arruaceiros e laranjas podres — rebateu. 

A servidora voltou a cobrar respeito da gestão com as classes e o cumprimento do direito garantido constitucionalmente pelo Congresso. Ela também classificou como “desleal” os posicionamentos da gestão municipal em “tentar jogar a população contra os agentes”. 

— Excelentíssimo senhor prefeito, nós [ACE e ACS], por toda nossa rica história e pelo reconhecimento que temos da sociedade divinopolitana, não pedimos, nós exigimos respeito por parte da administração municipal (...) Só estamos pedindo respeito — defendeu. 

Apoio 

O projeto mencionado está sobrestado por solicitação do vereador Roger Viegas (Republicanos). Ele defendeu sua decisão não por interesse político, mas por identificação com a classe, uma vez que seu pai já foi agente comunitário de saúde. 

— Eu sei o que eles sofrem na pele, andando de casa em casa, sol a sol, chuva a chuva — relatou. 

O vereador disse que o projeto segue sem ser votado por pedido da própria categoria, em deliberação votada internamento entre os agentes na última sexta. 

— Essa Câmara está com os agentes — antecipou. 

Roger também questiona o motivo da Prefeitura, em vez de apresentar um projeto separado apenas com a questão do piso salarial, incluir outras destinações na mesma proposição. Dos quase R$ 17 milhões, apenas R$ 6 mi são destinados ao pagamento dos salários dos agentes. Os demais incluem, por exemplo, recursos a serem repassados para o Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD) e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA). 

— Por que esse projeto atrelou essa série de coisas? Por que a Prefeitura será que para pressionar essa casa colocou tudo junto?

A resposta, sugere, é porque a atual Administração queria “R$ 16 milhões para serem passados às pressas aqui, nesta Casa”. 

— Eles querem apenas o que foi prometido pela campanha, prefeito, a valorização da classe, coisa que não vem tendo — reforçou.

Do mesmo partido do prefeito, a vereador Ana Paula do Quintino (PSC) também lamentou a fala do prefeito. 

— Eu fiquei chateada com o termo. (...) Espero que esse problema se resolva logo. Se é direito de vocês, têm que resolver — afirmou.

Josafá Anderson (Cidadania) foi outro a expressar “profunda tristeza” com a situação. Segundo ele, os profissionais sempre são convocados para trabalhos para além de suas atribuições e, por isso, o cumprimento do piso é questão de reconhecimento e valorização. 

Presidente da Comissão de Saúde da Câmara, Zé Braz (PV), compartilhou sua empatia pelas classes. 

— A luta não é fácil. A gente reivindicar nossos direitos é a coisa mais difícil, principalmente quando a gente não tem o apoio onde se espera. (...) Essa luta é nossa e, com certeza, vamos vencer — garantiu. 

“Caos”, definiu Lohanna França (PV) sobre a situação. Para ela, o descaso é “coroado” pela declaração infeliz do prefeito. 

— Coroado pela deselegância, desrespeito, falta de tamanho e tudo mais do prefeito que a cidade elegeu. (...) A cada ato, ele se apequena mais. Não tem estatura para ocupar o cargo — citou. 

A vereadora afirmou ainda que, antes de criticar os servidores, o prefeito deveria estudar e passar em um concurso público. 

— Eles passaram em concurso, não foram carregados para a cadeira por irmão nenhum — citou, em referência ao apoio do senador eleito, Cleitinho Azevedo (PSC).

Apesar da decisão dos agentes, Lohanna defendeu que o projeto seja pauta o mais breve possível para não prejudicar a remuneração dos servidores. A aprovação do texto, no entanto, não impediria outras ações judiciais sobre o caso, pois, ao citar a Constituição, a parlamentar vê base para responsabilização do prefeito pelo crime de retenção de salário. 

— Vamos buscar formas de penalização do prefeito. É absurdo. (...) Laranja podre é o senhor — acusou.

Quem também criticou o chefe do Executivo foi Flávio Marra (PSC). Ele disse que, apesar de respeitar o prefeito, a fala foi desagradável dada a “injustiça” do caso.

— É uma vergonha ir pra rede social querer justificar o injustificável. Para de ficar jogando a culpa para cima de vereador e servidor — conclui.

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