A volta dos cassinos

CREPÚSCULO DA LEI – Ano IV – CLXVIII


A VOLTA DOS CASSINOS

Não se trata do “Cassino do Chacrinha”. 

A Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que legaliza os jogos de azar, como cassinos, “jogo do bicho” e bingos, para a infelicidade principal concorrente das igrejas e agências policiais e cursos de “coach on-line”. Falta o senado.

Sem embargo, é interessante no contexto, ou penumbra das jornadas clandestinas, os argumentos utilizados pelo “lobby” que articulou a aprovação, tendo como porta-voz um tal político de nome Felipe Carreras (?) sob o pálio ridículo da arrecadação de impostos para políticas públicas e sociais: 

— “...O Brasil precisa gerar emprego e oportunidade… O que destrói as famílias é fome e o desemprego e os jogos de aposta podem trazer oportunidade… Gerar renda… Dar dignidade para quem precisa e está atrás de uma banca “de bicho”… Será que “Deus” (sic) não quer que essa pessoa tenha dignidade de ter sua carteira de trabalho assinada?”

Por outro giro, outro tal deputado Eduardo Girão (!) pede “orações” contra o projeto, no sentido de que o país já teria problemas demais, não necessitando de outros oriundos dos jogos de azar.

Assim, nessa esteira “player”, católicos, evangélicos e espíritas estão contra esse movimento satânico que visa angariar dízimos, ou melhor, apostas de incautos e prejudicar a economia familiar. Outro tal deputado, Nazareno (?) Feitosa alertou sobre a seguinte possibilidade:

— “...Tem pesquisa mostrando que quando a pessoa começa a utilizar jogos de azar, ela desenvolve uma dependência tão forte quanto à equivalente da cocaína, além de levar pessoas à depressão, arruinadas financeiramente, já que o jogo é feito para (você) perder… Além disso há casos de suicídio, destruição de lares… Então é melhor não oferecer isso para nosso povo… O dinheiro utilizado nos jogos de azar deixa de ser investido na educação dos filhos, na compra de roupas!” (Comovente prá caramba!)

A ministra goiabeira Damares já comparou o evento com “pacto com o diabo”, recebendo uma descompostura do ministro “by Pinochet” Guedes:

— “...Damares, deixa cada um se fud** do jeito que quiser. Principalmente se é maior, vacinado e bilionário.” (Parece que o ministro Guedes sente um certa hibristofilia ao falar de “bilionários”)

Eis que o tal projeto de lei (442/91) oferece um vernáculo adequado à simpatia do capital, dos investidores e, claro, da “lavagem de dinheiro” e da sonegação, tudo combinado com destruição ou comprometimento de reservas e parques ambientais.

Com uma escrita professoral escolástica do fecundo “mos italicus”, o projeto define jogo de habilidade, jogo de chance, máquina de jogo, cassino, entidade operadora de jogos, sua companheira entidade turística, zona de jogos, participação qualificada, grupo de controle etc.

Haveria, portanto, jogos de cassino, jogos on-line, vídeo bingo e apostas turísticas. São Paulo teria três cassinos, Minas e Rio de Janeiro dois, e os demais estados e Distrito Federal apenas um. Também haveria cassinos flutuantes pelo país em conformidade numérica correlata à extensão do rio a ser explorado.

Nessa esteira, o Brasil poderá ter 33 cassinos e cerca de 2 mil bingos, além da frente ampla dos bicheiros beirando aos quinhentos, tudo com possibilidade de se chegar a 6 mil “operadores de apostas” regulares.

Ora, mas a antiga repressão ao “jogo de bicho” não dizia exatamente o contrário?

Não seria a mesma argumentação que se utiliza para que o Brasil tenha uma das repressões mais violentas do mundo contra o “tráfico de drogas” (nas favelas)?

Evidentemente que vem à tona a força dos tais “empresários morais” e suas articulações oportunistas em ondas artificiais “indoor”, contrastante com o momento da galhardia verde oliva de Gaspar Dutra que, em 1946, proibiu os cassinos sob argumento da “tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro”. 

Pegou todos de surpresa. 

O tempo foi passando, mas os “empresários morais” nunca passam. Parece que desta vez os rufiões financeiros vão ganhar novamente. Alguém aposta?






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