A oposição tem chance em Divinópolis?

Traçando um quadro de perspectivas do cenário até 2024, o colunista analisa um aspecto decisivo da dinâmica política local

Márcio Almeida

Indispensável à democracia, na medida em que apresenta alternativas ao projeto de poder em exercício, além de fiscalizar ações e omissões dos mandatários, a oposição em Divinópolis está diante de uma esquina. Sua primeira alternativa é tomar a via trilhada nas eleições de 2020, quando candidatos já bastante conhecidos do eleitorado, porém com o desgaste decorrente do exercício de mandato, enfrentaram novatos não desgastados, porém menos conhecidos até então na cena política municipal.

Por essa via se chegou à possibilidade de o deputado estadual Cleitinho Azevedo, cacifado pela boa votação obtida anteriormente para um mandato na Assembleia Legislativa, emplacar seu irmão Gleidson na prefeitura com cerca de um terço da votação válida, além de colocar outro irmão, Eduardo, entre os mais votados para a Câmara Municipal. É óbvio que, tanto quanto o cacife de Cleitinho, primeiro político local a falar com fluência a língua das novas mídias, pesou no resultado a fragmentação das forças envolvidas na disputa da Prefeitura.

Esse caminho fragmentado para o pleito de 2024 apresenta um dificultador para os oposicionistas. Estes têm agora, do outro lado do campo de disputa eleitoral, um projeto literalmente familiar de poder, com Cleitinho no Senado, Gleidson na Prefeitura e Eduardo na Assembleia, sem que se possam excluir futuras candidaturas de outros membros e agregados da família. A eles se somam o deputado federal Domingos Sávio, recém-convertido ao bolsonarismo raiz, e o governador Romeu Zema, que até aqui parece rezar, ainda que de modo velado, o mesmo credo ideológico. Juntos sob a bandeira bolsonarista, que nos dois últimos pleitos presidenciais demonstrou ter ampla capilaridade eleitoral em Divinópolis, eles construíram condições — nelas incluído o comando da máquina pública — para exercer hegemonia em Divinópolis.

Resta à oposição, se não quiser insistir na fragmentação de forças, com resultados que podem ser parecidos com os da eleição de 2020, a alternativa de construir uma frente que seja ativa e ampla. Se há facilitadores no processo de construção desse grupo, como a eleição de Lula para a presidência da República e a da vereadora Lohanna França para a Assembleia, em uma campanha que colocou a deputada eleita como centro de gravidade do campo progressista local, também existem desafios.
O primeiro deles, quanto ao caráter ativo de uma eventual frente, está na própria dinâmica da oposição local, que nos últimos anos praticamente se resumiu à Câmara Municipal, na maior parte das vezes com baixa ressonância na sociedade. Com poucas e louváveis exceções, os tradicionais políticos divinopolitanos têm o hábito de pouco se manifestar durante o exercício de mandato dos administradores públicos locais. Pensando, talvez, em se preservar de desgastes, e sem perceber que em tempos de mídias sociais quem não toma partido não cria referência junto ao eleitorado, guardam para a campanha seu pulo do gato, que nas últimas eleições, como se viu, foi de fôlego curto. São exceções na Câmara, além de Lohanna, os vereadores Ademir Silva, Josafá Anderson, Roger Viegas e Hilton de Aguiar, todos com uma postura independente e fiscalizadora, que não exclui eventual colaboração em iniciativas do Executivo que julgam corretas. Mas eles compõem uma minoria — ainda que de incontestável valor político — que ficará desfalcada com a ida de Lohanna para a Assembleia. Assim, para a quase totalidade dos oposicionistas ao atual governo que têm ou tiveram cargo público, a tarefa primeira é a de efetivamente fazer oposição aberta e honesta — fiscalizando ações e omissões do Executivo e a ele propondo soluções — e não apenas se apresentar a cada pleito para disputar os cargos da vez.

O segundo desafio, quanto ao caráter amplo de uma eventual frente, não é menos difícil para a oposição. O bom senso indica que, no atual contexto divinopolitano, marcado por um grupo de mandatários fortemente alinhados ao bolsonarismo, o caminho para que os oposicionistas consigam construir sua viabilidade eleitoral em 2024 passa de modo incontornável por aglutinar forças progressistas e moderadas que estejam situadas na esquerda, no centro ou na direita não bolsonarista. Todavia, mesmo o mais desatento observador da cena política local sabe que essa aglutinação nem sequer chega a ser proposta de maneira franca entre os que não integram o grupo atualmente no poder. E, quando é ventilada entre quatro paredes, geralmente não consegue ser levada a sério, pois prevalece entre grupos e lideranças a estratégia de aguardar as eleições e, dando o que der, lançar candidatura própria a prefeito, ainda que ela já surja com baixa viabilidade.

Não é necessária nenhuma expertise política para entender que essa via, como já dito, reduz consideravelmente as próprias chances de sucesso da oposição mesmo nas atuais circunstâncias do governo de Gleidson, o qual, a despeito de alguns acertos, acumula polêmicas e deficiências de planejamento e execução em áreas diversas, merecendo, no máximo, ser avaliado como uma gestão até aqui mediana. De todo modo, tendo à mão a máquina e o respaldo legislativo da ala bolsonarista raiz nos segmentos estadual e federal, além de uma maioria obediente na Câmara Municipal, que engaveta pedidos de providências políticas quanto a sérias suspeitas de irregularidades no uso de dinheiro público, uma perspectiva de candidatura do atual prefeito à reeleição já surge competitiva.

Por onde passaria a construção de uma frente ampla e ativa de oposição em Divinópolis, capaz de ofertar à escolha dos eleitores e eleitoras uma alternativa política digna de ser avaliada em 2024? Para ser ampla, ela precisaria superar as divisões que hoje se mostram entre os progressistas e moderados, que focam reiteradamente nas diferenças que os separam e não no ponto para o qual convergem: a rejeição ao modelo bolsonarista de fazer política e ao seu agressivo e frequentemente antidemocrático discurso antissistema.

Superar tais divisões sem anular as diferenças, como mostra a experiência histórica, não depende de mágica. Isso se consegue com um esforço para juntar a velha e a nova guarda da política divinopolitana, com muitas conversas setoriais e com a elaboração de uma agenda para o desenvolvimento do município, algo que até aqui a atual administração nem chegou a esboçar de modo suficientemente abrangente e sistemático. Tal agenda ficaria ainda melhor se fosse construída gradativamente a partir das conversas setoriais, compondo uma espécie de foro capaz de atuar como polo fomentador de discussões propositivas sobre o que tem interesse público e relevância social em Divinópolis.

Para ser ativa, essa frente precisaria, no mínimo, aglutinar todos os esforços hoje existentes de acompanhamento sistemático das políticas públicas que a administração municipal implementa ou deixa de implementar, assim como precisaria levantar outras demandas, em interlocução permanente com órgãos, entidades, movimentos, personalidades e setores da sociedade interessados em encontrar soluções para as grandes questões em aberto no contexto local. Dessa interlocução precisaria resultar alguma militância popular capaz de se contrapor à que existe em relação à atual gestão e que se articula pelo método bolsonarista, fortemente ancorado em novas mídias.

Obviamente, o trabalho de dar dinâmica e amplitude a uma frente capaz de oferecer uma alternativa viável ao eleitorado em 2024 depende, de modo direto, de líderes dispostos a interagir no debate público sobre ideias e iniciativas em favor de Divinópolis, sem deixar para depois o que, para ser efetivo, precisaria iniciar-se agora. Isso, repita-se, é óbvio para todos os observadores, inclusive e sobretudo para os próprios oposicionistas e lideranças não alinhadas à atual administração, mas ainda não se vê entre eles quem se disponha a deixar o vestiário e sair a campo. Enquanto isso, Cleitinho e seu time vão rolado a bola diante da plateia.

Márcio Almeida é analista político do Agora e apresenta, no perfil do jornal no Instagram, a videocoluna opinativa “Além da Notícia”, veiculada nas manhãs de segunda, quarta e sexta-feira.

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