A gente vê depois

A gente vê depois 

Chegar em casa e não ter o que comer. Não ter como alimentar os filhos. Viver com uma renda per capita de até R$ 89. Pode parecer inimaginável para você, leitor, mas infelizmente é a realidade que milhões de brasileiros enfrentam diariamente. Em Divinópolis, esse é o cenário enfrentado por mais de 10 mil pessoas, que estão vivendo na linha da extrema pobreza. E o pior é que essa realidade é encarada na sua maioria por crianças e adolescentes entre 7 e 15 anos, e idosos acima de 65 anos. Junto com jovens e adultos das demais faixas etárias, eles chegam em suas casas – ou sequer saem – e encontram apenas a fome. Sim! O 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar mostra que a fome virou rotina para milhões de brasileiros. A situação, cada dia mais preocupante, é a mesma de 30 anos atrás. 

E, se a fome virou “companheira” de 33,1 milhões de pessoas espalhadas por este país, o que não falta é dinheiro público para gastar. De um lado Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) instauradas Brasil afora para investigar as “farras” com dinheiro público, o pagamento de cachês milionários de cantores sertanejos e por aí vai. Do outro, fome, miséria, barriga roncando. De cá, tem farinha com açúcar, ou qualquer outro tipo de “mistura” – de lá, caviar, lagosta, champanhe e tudo de melhor que a vida pode oferecer. Pensar em tudo isso já seria suficientemente estarrecedor, mas torna-se pior quando se coloca ainda o fato de que não há qualquer movimento para mudar esta realidade. Há apenas o que pode-se chamar de “esmolas” ou, em outras palavras, um auxílio do governo aqui, outro ali, que definitivamente estão longe de dar aquilo que o povo precisa: dignidade. 

Na mesa de uns, fome. Na de outros, fartura. E, na mesa de muitos, mas muitos mesmo, fartura com o dinheiro que deveria ser utilizado para dar dignidade àqueles que têm hoje a fome como rotina. O abismo social no Brasil fica cada dia maior. Para constatar isso, não é preciso ir muito longe. Afinal, só aqui em Divinópolis são 10.418 pessoas vivendo em situação de extrema pobreza, que com certeza esperam, neste momento, por um prato de comida em suas mesas. De um lado, a espera pelo alimento. De outros, CPIs que não dão em nada. Que apenas investigam, mas não mostram solução. Não colocam comida na mesa. A verdade é que, se a cada CPI instaurada para investigar desvio de dinheiro público fosse comida fosse colocada na mesa do brasileiro, hoje não teríamos tanta gente passando fome. A evolução, ao que tudo indica, está longe, muito longe de vir. Afinal, retrocedemos. Voltamos ao início dos anos 90. 

E, enquanto essas linhas são escritas, uma criança dorme e acorda com fome. Um pai não tem o que dar para o seu filho comer. Milhares de famílias têm apenas sonhos de dias melhores. Representantes do povo dormem com a barriga e o bolso cheios. Sem sequer se preocupar com o que vão fazer para mudar este cenário. Afinal, as campanhas estão aí e, nas listas de prioridades, se manter no poder está em primeiro lugar. A fome, a gente vê depois.

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