A família e o familismo

Raimundo Bechelaine

A família e o familismo

Quarta-feira próxima, 8 de dezembro, celebra-se no Brasil o "Dia Nacional da Família", instituído por lei federal, em 1963. Mais recentemente, em 2001, o Ministério da Educação estabeleceu o 24 de abril como "dia da família na escola", para realçar os laços e a necessária colaboração entre as duas instituições. Mas há também o "Dia Internacional da Família", 15 de maio, criado pela ONU em 1993. Não será por falta de datas e comemorações que esse grupo original chamado família, que nos envolve a todos, será esquecido.

Há concordância em admitir que o grupo familiar está entre os  mais básicos na formação das sociedades humanas. Em torno disso, tecem-se loas de exaltação à família, muita coisa se diz, se escreve e se ensina. Porém, frequentemente, omite-se a definição ou conceituação precisa do que se quer dizer ou se entende por família. Há até quem julgue o vocábulo definido por si, sendo desnecessária qualquer delimitação. 

Entretanto, a verdade é que, ao longo da história e na variedade das culturas e civilizações, a família se apresenta em configurações bastante diversas. Surge, então, a necessidade de acrescentar algum adjetivo. Fala-se em família ocidental, ou tradicional, ou contemporânea, ou cristã; e várias adjetivações mais são possíveis.

Entre nós, no mundo ocidental, há um consenso, no sentido de que a família tradicional é a mesma que a cristã. Ou seja, ambas significam o grupo formado por um homem e uma mulher, unidos por um compromisso legal ou religioso, e seus filhos. Em torno desse modelo familiar, constrói-se um conjunto de doutrinas e princípios, resumidos nos chamados "valores familiares".  Alguns desses valores são reais e legítimos. Ninguém negará que o espaço da boa convivência e da espontaneidade, o amor, a fidelidade, a confiança e o cuidado mútuo são elementos positivos. Devem ser preservados e cultivados.

Deve-se reconhecer, porém, que podem surgir deturpações. Pinta-se um quadro idílico da família, ocultando-se as limitações e contradições. Da valorização da própria família, pode-se chegar a uma forma de egoísmo grupal. "Se nossa família está bem, o que se passa lá fora não importa." Pode surgir até um sentimento de exclusão e superioridade, em relação aos outros que não conseguem realizar o ideal da família perfeita. As expressões "gente de bem" ou "cidadãos do bem" ou "família decente" expressam esse sentimento.  

Daí a resvalar-se para uma ideologia fortemente conservadora e até agressiva é apenas um passo. É a ideologia do familismo ou familiarismo. Todos que não se enquadram naquele único esquema padrão estático são excluídos e rejeitados. Chega-se a uma pregação terrorista mórbida, que aponta inimigos, degenerados e ameaças por todo lado. Mais ainda, na medida em que as condições econômicas e sociais vão dificultando a realização daquele modelo de "perfeição familiar". Vale ficar atento.

Mas, enfim, viva a família. Ela merece todo o nosso amor. Demos a cada dos nossos familiares o melhor carinho, atenção e cuidados. Cultivemos com eles a fraternidade mais sincera. Mas deixemos as janelas abertas. Somos cidadãos do mundo. [email protected]

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