‘Tratam as pessoas como se fossem cachorros’, diz funcionária do centro de triagem da UPA

Pacientes reclamam de péssimas condições de atendimento; mais de 300 pessoas procuraram o serviço somente nas primeiras horas

Bruno Bueno

Divinópolis está próximo de enfrentar um novo colapso no sistema de saúde. A alta no número de pacientes com sintomas respiratórios, casos confirmados e internações por covid-19 preocupa as autoridades municipais. Para amenizar a superlotação de postos de saúde, a Prefeitura iniciou, na manhã de ontem, o funcionamento de três centros de triagem para atender pessoas com sintomas.

A solução não se mostrou eficiente. Ao menos é o que afirmam alguns moradores, que reclamam de péssimas condições nos espaços, especialmente na lateral da UPA. Relatos de aglomeração, ausência de proteção ao sol, mistura de pacientes sintomáticos e assintomáticos, falta de atendimento preferencial e grande tempo de espera foram citados por alguns. 

A reportagem foi à UPA e confirmou as reclamações de quem buscava atendimento. Uma servidora desabafou sobre as péssimas condições do centro de triagem e disse que as pessoas estão sendo tratadas como se fossem cachorros.

 

‘Desumano’

A funcionária, que preferiu não se identificar, tentava acalmar os pacientes que estavam desesperados por atendimento. Ela descreveu a situação.

— Isso é muito desumano. As pessoas estão no sol. Marcaram para começar às 10h e não começou. Jogaram o pessoal na UPA e estão tratando igual cachorro. Não tem água direito e todo mundo está no sol. É apenas um médico para fazer o atestado. As pessoas acham que é a UPA, mas a culpa não é da UPA — desabafou.

De acordo com a servidora, mais de 300 pessoas procuraram atendimento somente nas primeiras horas. No entanto, a maioria delas não conseguiu.

— Tem criança, tem adulto, tem pessoas de 85 anos na fila. Como você vai fazer uma consulta legal se as pessoas ficam muito nervosas e acham que a culpa é da gente? A culpa não é nossa (funcionários da UPA). (...) Até agora (14h20) foram 340 pessoas que procuraram o atendimento. No entanto, muitos já foram embora porque não aguentaram esperar — enfatizou.

 

‘Falta de respeito’

Daiana Cássia, que trabalha como auxiliar administrativa, está com sintomas de covid-19 e procurou o centro de triagem. No local, ela relatou os principais problemas do espaço e disse estar surpreendida com a falta de respeito das autoridades municipais.

— É um desrespeito com a população. A gente perde o dia de trabalho. Eu estou aqui desde às 11h e ainda não fiz o teste. Estamos misturados com pessoas sintomáticas, assintomáticas e ninguém tem certeza se está com a doença. Essa aglomeração vai causar uma enorme proliferação do vírus — pontuou.

A solução para o problema, segundo ela, parte dos postos de saúde.

— Isso pode ser evitado com os atendimentos sendo feitos nos postos de saúde dos bairros, porque isso é um absurdo. Eu cheguei no posto para procurar atendimento e não tinha médico. Resolveram centralizar o atendimento todo na UPA  e causaram essa aglomeração. (...) Eu acho uma falta de respeito com a população e com a equipe médica que está sobrecarregada — ressaltou.

 

‘Sem atendimento preferencial’ 

A situação de Italo Lajes, distribuidor comercial, é parecida. Segundo o homem, a triagem está mal organizada. Entre os problemas, ele destacou a falta de atendimento preferencial para crianças, idosos e outros.

— Está muito mal organizado e sobrecarregou muito os funcionários. Estamos misturados com crianças que estão esperando a pediatria. Não tem atendimento preferencial para idosos e outros que precisam. Não tem lugar para ficar, temos que permanecer no sol. O sistema deles é muito lento — enfatizou.

Ele também informou que todos os pacientes, sintomáticos ou não, ficam no mesmo local sem qualquer tipo de proteção.

 — Ninguém vai ficar no sol, todo mundo vai para a tenda. Então, a pessoa que não é sintomática e veio buscar outro atendimento acaba prejudicada. Isso é muito errado, eles ficam reféns — esclareceu.

 

Prefeitura

A reportagem procurou esclarecimentos da Prefeitura. Em nota, a Diretoria de Comunicação informou que não há centro de testagens no município.

— As pessoas estão confundindo centro de triagem com centro de testagem. Não montamos um centro de testagem. Elas precisam procurar o centro de triagem apenas quando tiverem os sintomas. Tem muita gente assintomática nas filas e não iremos testá-las — disse.

A pasta deu mais detalhes sobre o funcionamento.

 

— As pessoas estão achando que é só chegar e fazer o teste, não é isso. Tem a triagem, atendimento médico e, se der positivo, ainda volta no médico. Se a pessoa, por exemplo, tiver contato com outra que testou positivo, mas está sem sintomas, não deve procurar o centro de testagem — afirmou.

No fim da tarde, o prefeito Gleidson Azevedo (PSC) esteve na unidade e ajudou na organização.

 

Particular

Além da UPA, o Cmei São Sebastião e a Escola Municipal Oribes Batista, no bairro Ipiranga, foram instalados como centros de triagem. Eles funcionam de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. A UPA, por sua vez, trabalha nesse setor das 10h às 22h, de segunda a segunda. Fora desse horário, os pacientes serão atendidos pela entrada principal do setor.

Quem não quer enfrentar as grandes filas pode procurar laboratórios especializados e farmácias particulares para realizar o teste. 

A reportagem conversou com o funcionário de um laboratório localizado no centro da cidade. Segundo o homem, que também preferiu não ser identificado, a procura por testes aumentou significativamente nas últimas semanas.

— O número de testes cresceu bastante, com grande parte registrando um resultado positivo para a doença. A maioria das pessoas que nos procuram não está com sintomas da doença, mas teve contato com familiares, amigos e outros que testaram positivo — relatou.

 

Ocupação

O aumento no número de contaminados se reflete na ocupação de leitos de covid. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Semusa), 24 pessoas estão internadas nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) entre os 42 leitos disponíveis na cidade para pacientes, o que equivale a 57,1% da ocupação total. No setor de enfermaria, a taxa é de 74,2%, com 46 leitos ocupados entre os 62 totais do município.

Os pacientes adultos (16 casos) estão divididos em: CSSJD (5), Hospital Santa Mônica (2), Hospital São Judas Tadeu (6) e Hospital Santa Lúcia (3). No setor de enfermaria, os 46 leitos ocupados estão divididos em: CSSJD (15), Santa Lúcia (11), Santa Mônica (8) e São Judas Tadeu (4).

 

Crianças

Ainda de acordo com a Semusa, um terço (oito casos) dos pacientes internados nas UTIs são de crianças. Seis delas estão internadas no Complexo de Saúde São João de Deus (CSSJD) ‒ cinco na área do SUS e uma na rede suplementar ‒  e duas no Hospital Santa Mônica.

Conforme a Prefeitura, um novo cadastro para a vacinação de crianças deve ser aberto amanhã. Mais de 500 crianças já foram imunizadas.

— Até o fim da sexta-feira, o Executivo já havia vacinado 552 crianças — relatou.

 

Duas mortes

A Semusa também confirmou duas mortes por covid-19 em Divinópolis. De acordo com a pasta, as vítimas são mulheres de 91 e 92 anos, ambas com comorbidades. A mais nova era diabética e hipertensa, além de possuir doença pulmonar, renal e cardiovascular. A mais velha, por sua vez, era portadora de doença cardiovascular crônica. 

Com os registros, a cidade acumula 665 óbitos pela doença.

 

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