[CRÔNICAS DEMOCRÁTICAS] Lohanna França e os oportunistas da política

Vídeo divulgado em Divinópolis faz crítica às escolhas eleitorais da candidata

Márcio Almeida Jr.

Está aberta em Divinópolis a temporada da polêmica eleitoral gratuita. A primeira peça dessa velha e recorrente campanha entrou em circulação nos últimos dias. É um vídeo que atribui à candidata a deputada estadual Lohanna França uma conduta incoerente ao apoiar a candidatura de Lula à presidência, já que no passado ela havia feito críticas ao petista e ao governo do PT. A mesma incoerência, segundo o vídeo, se verificaria no fato de Lohanna, aliada de Alexandre Kalil na disputa do governo de Minas, ter entre seus doadores de campanha um profissional que atua na equipe de assessores de Carlos Viana, também candidato a governador. 

Não é possível afirmar que o vídeo mente sobre o apoio de Lohanna a Lula e Kalil ou sobre a doação de campanha que ela recebeu de um amigo contratado para prestar serviços a um outro candidato ao governo de Minas. É possível afirmar, entretanto, que o vídeo toca em uma questão relevante sem conseguir discuti-la de modo produtivo, a começar pelo fato de que ignora a elementar exigência legal de fidelidade partidária. Como é sabido, tal exigência não permite aos candidatos ao Legislativo, sob pena de punição, a possibilidade de escolher livremente aqueles a quem vão dar seu apoio na disputa por cargos do Executivo, pois isso é regulado pela posição do partido ou da federação partidária na qual ele eventualmente se inclui. Também é possível afirmar que a crítica feita pelo vídeo, ao qualificar de “oportunista” a atitude de Lohanna, está baseada em uma compreensão da política brasileira que não encontra lugar na realidade constatada, à direita ou à esquerda, em matéria de coerência ideológica e pureza moral. 

A regra de justiça convida a dar tratamento igual a casos iguais. Isso implica, de um lado, dizer que Lula, fundador de um partido de centro-esquerda, foi incoerente em 2002 ao trazer para sua chapa na disputa da presidência o mineiro José Alencar, do direitista Partido Liberal. De outro lado, implica dizer que o presidente Jair Bolsonaro, depois de ter xingado o Centrão em várias ocasiões, considerando-o o que há de pior na política brasileira, não só se aliou a ele como lhe deu a chave do cofre em várias iniciativas um tanto questionáveis evolvendo o manejo do orçamento federal.

Se tiverem curiosidade de ler a respeito, os críticos de alianças político-eleitorais descobrirão que o chamado presidencialismo de coalizão, delineado pela Constituição de 1988, obriga os mandatários a dialogar com ampla maioria de congressistas. O diálogo e a negociação são, às vezes, o único caminho para implementar políticas públicas que requerem emendas constitucionais. Estas, por sua vez, só podem ser aprovadas com maioria qualificada de deputados e senadores, o que força a coalizão por meio de alianças. Foi isso que levou tanto Lula quanto Bolsonaro ao Centrão. E foi a falta disso que tirou Dilma Roussef da presidência há seis anos, quando o Centrão articulou o golpe parlamentar do impeachment.

A mesma lógica produz no plano estadual fenômenos como o “Dilmasia” de 2016, que desconsiderou a histórica rivalidade eleitoral entre PT e PSDB e juntou em palanques de Minas apoiadores de Dilma e do então candidato a governador Antônio Anastasia, ou o “Bolsodoria” de 2018, que uniu aliados de João Doria, postulante ao governo de São Paulo, e do então candidato a presidente Bolsonaro. E está clara em 2022 a existência de um voto “Luzema”, dado por apoiadores simultâneos de Lula e do governador Romeu Zema, que disputa a reeleição em Minas. 

Em Divinópolis, para ficar com dois exemplos entre vários possíveis, esse voto pragmático por certo vai beneficiar bolsonaristas-raiz como Cleitinho Azevedo, candidato ao Senado, e lulistas convictos como Valéria Morato, que disputa vaga na Assembleia Legislativa. Qualquer pessoa que já tenha ultrapassado os ardores ideológicos da adolescência sabe que, salvo melhor juízo, nem Cleitinho nem Valéria estão dispensando os votos de eleitores de candidatos a presidente diferentes do seu. Sabe também que muita gente, na cidade e no restante do país, vai votar em Bolsonaro mesmo não gostando do balcão de negócios escusos que se descobriu no Ministério da Educação, assim como vai votar em Lula mesmo discordando da roubalheira do Petrolão durante os governos petistas. Esses não são, como alguns podem pensar, eleitores mal-informados ou pouco capazes intelectualmente. São eleitores que chegaram à vida adulta, pararam de acreditar em salvadores da pátria ou super-heróis da política e passaram a fazer as melhores escolhas possíveis entre os candidatos disponíveis em cada eleição. 

Na prática política, os únicos que não precisam buscar alianças e apoio fora de sua bolha ideológica são os puristas de esquerda, inspirados por gente como o socialista Fidel Castro, e os de direita, sob a inspiração de gente como o neoliberal Augusto Pinochet. A história mostra que gente assim lida com a multifacetada realidade política — feita de “Dilmasias” e “Luzemas” — adaptando-a ao seu purismo. Como se sabe, porém, os puristas, com raras exceções, não se importam em passar longe da democracia na tentativa de implantar sua utopia de uma sociedade organizada exclusivamente para operários ou para investidores.

Aos não puristas, que têm apreço pela democracia e acreditam em uma sociedade capaz de juntar trabalhadores e empreendedores, resta o caminho de formar alianças. Foram as alianças que colocaram o industrial José Alencar na chapa do PT e ajudaram o sindicalista Lula a se eleger em 2002. E são elas, vinte anos depois, que unem Bolsonaro ao Centrão e ajudam o presidente a se blindar das dezenas de processos de impeachment movidos pela oposição e a implementar medidas do “pacote de bondades” lançado para aumentar seu cacife eleitoral. Conclui-se que o vídeo sobre Lohanna, embora não minta, baseia-se em uma concepção ideal de coerência ideológica e pureza moral. 

Na vida real, contudo, a maioria do eleitorado prefere apoiar nomes e não siglas partidárias, ainda que eles tenham ideologias contrárias, e às vezes escolhe seus candidatos não entre os ideais, que nem sempre estão disponíveis, e sim entre os mais adequados, sem lhes dar apoio incondicional ou lhes fazer críticas absolutas. Na vida real, postulantes a uma vaga no Legislativo estadual ou federal não costumam dar-se ao luxo de dispensar votos daqueles eleitores que apoiam candidatos a presidente e governador diferentes dos seus. Nesta vida real, onde opera a democracia, o buraco é mais embaixo.