[CRÔNICAS DEMOCRÁTICAS] Divinópolis e suas mulheres de parar o trânsito

Uma reflexão sobre as vias ainda interditadas para elas na sociedade brasileira e sobre o quanto todos perdemos com isso

Márcio Almeida

O nome eu não sei, porque não foi publicado. Mas é certo que lá estava a mulher de parar o trânsito. Para ser exato, digo que ela estava parando o trânsito na esquina das ruas Osvaldo Machado Gontijo e Coronel João Notini, em pleno centro da cidade, às 10 horas e 29 minutos da terça-feira, 19 de julho. A prova material de que ela parou o trânsito foi produzida por um ou uma das dezenas de milhões de fotógrafos e cinegrafistas que o Brasil tem hoje, de Roraima ao Rio Grande do Sul, prestando serviços gratuitos à mídia com seus telefones celulares equipados com câmeras poderosas e recursos de aproximação.

Nas imagens que vieram a público, aparentemente feitas de um ponto mais alto, a mulher de parar o trânsito aparece de azul, instantes depois de um carro e uma moto terem colidido em um acidente que felizmente não produziu fatalidades. Em razão da distância da câmera, não é possível ver com clareza o rosto dessa mulher de parar o trânsito ou perceber características que a possam distinguir das outras mulheres. Mas ela estava lá, como mostra o vídeo, não só parando o trânsito como também fazendo que ele seguisse. Com sinais feitos com os braços, ia orientando os condutores até que chegasse a guarda municipal.

Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Eis, senhoras e senhores, que uma mulher assume a condução do trânsito difícil do centro da cidade, em um momento especialmente difícil, e ajuda a impedir que a colisão de dois veículos, conduzidos por dois jovens de 27 e 28 anos, produzisse outros problemas. Neste país em que a velha piada de mau gosto ainda diz que mulher ao volante é um perigo constante, uma mulher orientou o trânsito que uma colisão entre dois homens tornou mais perigoso do que já é. Foi isso o que percebi e que por certo percebeu a pessoa responsável por colocar o vídeo nas redes sociais.

Sim, é preciso dar notícia aos quatro ventos divinopolitanos de que uma mulher conduziu o trânsito nesta cidade cuja boa fama nacional se deve mais a suas mulheres do que a seus condutores do sexo masculino. Dois deles, aliás, viralizaram em redes sociais não faz muito tempo ao protagonizar em pleno centro da cidade uma luta corporal motivada por desavenças de trânsito. Até onde me foi dado constatar, não houve na ocasião nenhuma mulher que devolvesse a piada ruim e dissesse que homens ao volante são um perigo constante, inclusive para si mesmos.

Mulheres divinopolitanas, portanto, além de serem elegantes ao não inverter a piada machista sobre seu comportamento ao volante, param o trânsito para impedir que acidentes causados por homens produzam outros problemas. Isso é notícia. Por isso pensei em procurar outras mulheres condutoras, não do trânsito, mas da mídia — como as amigas Jane Faria, do Agora, e Ana Paula Silva, do programa Panorama Geral, da Rádio Divinópolis —, e sugerir que, nas publicações e veículos de comunicação que elas pilotam, seja feita uma entrevista com a mulher que parou o trânsito.

Seria útil encontrar essa mulher de parar o trânsito e, se ela desejar falar sobre o que fez na rua, colocar à sua disposição as câmeras e os microfones. É urgente, ao ouvi-la ou ao meditar sobre sua atitude, caso ela opte por não se manifestar, perceber que o único perigo constante em um país com 51% de mulheres é que as mulheres continuem a ter poucas oportunidades de conduzir as coisas, inclusive na política. Dados do final de 2021 publicados pela União Interparlamentar apontam que elas ocupam 15% das vagas na Câmara Federal e 12,4% no Senado. É pouco.

Tão pouca, aliás, é essa representatividade, que o Brasil, segundo os mesmos dados, só aparece na posição de número 142 entre os 192 países pesquisados em um ranking que mediu a participação de mulheres na política nacional. Além de pouco, esse número é constrangedor para a democracia: tão constrangedor que, neste país onde as mulheres são hoje 53% do eleitorado, foi preciso criar para elas uma cota mínima de 30% das candidaturas. E olhe lá, pois, como mostra o noticiário, não é raro ver suspeitas de fraudes nas candidaturas femininas: fraudes feitas por homens.

Não me venham dizer, senhores, que a situação decorre de falta de interesse ou de aptidão, pois esse é um argumento sem base na realidade. Mulheres têm, sim, interesse em participar da vida pública. O que não têm tido, da parte dos caciques que comandam a política nacional, é uma oportunidade condizente com seu interesse e seu percentual de representação na população e no eleitorado brasileiro. Todavia, a história, substantivo feminino, mostra que, se lhes falta oportunidade, sobra a elas aptidão tanto no parlamento e na administração pública quanto fora deles.

Não haveria de ser diferente. Afinal, a não ser nos cargos em que persiste a desigualdade histórica em razão de uma arraigada cultura machista, o número de mulheres iguala o de homens entre os aprovados em concursos públicos para cargos decisivos na estrutura do Estado. Assim, por exemplo, no Judiciário de nível federal, setor mais avançado nesse sentido, e com provas incluídas entre as mais difíceis do país, as mulheres são 35,7 mil, enquanto os homens somam 35,8 mil, conforme dados recentes divulgados pela mídia. Não faltam a elas, por certo, a aptidão e a competência necessárias.

Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Por essas e outras é que, na mesma semana em que ocorreu o episódio de trânsito de que trato aqui, eu dizia à amiga Valéria Morato — ela própria condutora de entidades sindicais que atuam em defesa da educação em Minas — que é preciso dar às mulheres o reconhecimento que elas fizeram por merecer. Por isso fiquei feliz ao ver que outra amiga, Laiz Soares, condutora de várias iniciativas socialmente importantes, gravou um vídeo, única manifestação de personalidade pública que constatei até aqui sobre o caso, para mostrar a Divinópolis o significado do gesto dessa mulher que conduziu o trânsito em uma manhã para evitar novo acidente.

Por isso julgo que faz todo sentido que em Divinópolis, por obra e graça da equipe do jornal Agora, se faça todo ano uma cerimônia como a das Mulheres Notáveis. Sim, é preciso notar as mulheres e o que elas têm feito. Mais do que isso: deixando de lado preconceitos já antiquados, é preciso que nós, homens, nos disponhamos a dar a elas mais oportunidades de conduzir. Temos tido a nossa oportunidade neste país por mais de 500 anos. Naturalmente, não se trata agora de suprimir os homens do comando por meio de uma feminocracia, mas de equilibrar as coisas e torná-las mais justas.

Por isso, ainda, pensei em sugerir a outra amiga condutora de iniciativas sociais, a vereadora Lohanna França, que tente localizar a identidade dessa incógnita cidadã que parou o trânsito e formule na Câmara Municipal seu voto de aplauso a ela, extensivo à capacidade e à dedicação da mulher divinopolitana. Pai de duas mulheres, uma advogada de 30 anos que se especializou na defesa de mulheres e uma empoderada senhorita de 3 anos que já anuncia sua intenção de atuar no Corpo de Bombeiros, gostaria de ver, na Câmara e na mídia, a mulher que parou o trânsito em Divinópolis. Seu gesto tem muito a nos dizer.

Márcio Almeida é jornalista, analista político e entusiasta da participação feminina na política, na economia e em outras áreas da sociedade brasileira.
Contatos: [email protected] (e-mail), marcioalmeidamg (Instagram) e Márcio Almeida (Facebook).

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